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Cinema
2013-09-10 11:06h

Novo filme de Miguel Gomes será crónica de Portugal em crise

O novo filme de Miguel Gomes inspira-se na estrutura de «As Mil e Uma Noites», para abordar «histórias que partem da realidade de um desgraçado país, Portugal», segundo a apresentação feita em Lisboa na segunda-feira, escreve a agência Lusa.

O realizador Miguel Gomes liderou a conferência de imprensa de apresentação do projeto, uma coprodução entre Portugal, França e Alemanha, com um orçamento de 2,7 milhões de euros, que deverá estar pronta em março de 2015.

«O que se pretende com este filme», diz a apresentação, «é fazer duas coisas em simultâneo»: «Retomar o espírito delirantemente ficcional de "As Mil e Uma Noites" e, sobretudo, reafirmar», com esse espírito e através dele, «a imperiosa necessidade de histórias», como forma de pensar do presente.

Coprodução entre Portugal, França e Alemanha vai inspirar-se na estrutura de «As Mil e Uma Noites» A obra procura, em simultâneo, fazer «uma crónica de Portugal», «num momento em que o país está sujeito aos efeitos da austeridade, criados pelo programa de assistência financeira da Troika», combinando «ficção e retrato social, tapetes voadores e greves» - «dimensões que não estão ligadas», embora, segundo a apresentação, imaginário e realidade não possam viver separados.

As histórias do filme vão partir das recolhas efetuadas até agosto de 2014, no site www.as1001noites.com, que foi aberto na segunda-feira. «Como no livro, serão trágicas e cómicas, com gente rica ou pobre, insignificante ou poderosa, repletas de acontecimentos surpreendentes e extraordinários», assegura a apresentação.

Os jornalistas Maria José Oliveira, Rita Ferreira e João de Almeida Dias acompanham a recolha de histórias no site, que tem ilustrações de Tiago Manuel. Miguel Gomes, Mariana Ricardo e Telmo Churro escrevem o argumento.

Ao fim do primeiro dia, o site apresentava três histórias: «A princípio Portugal parece ser um país triste, sem muito para oferecer», sobre um antigo imigrante brasileiro que regressou ao país de origem, num paquete de luxo; «Sou a Teresa Lopes e acho que...», sobre uma reformada, que intervém em programas de opinião pública nas televisões, e «Maria Cecília, candidata aos 87 anos por amor ao partido», a mais velha nas listas das próximas autárquicas.

O calendário de produção do filme, incluindo a rodagem, vai até ao final verão de 2014, estimando-se que a pós-produção decorra até fevereiro de 2015.

Coproduzido por Portugal, França e Alemanha, o orçamento é garantido em mais de 80 por cento, por Portugal (1,2 milhões de euros) e França (1,1 milhões), sendo a participação alemã de cerca de 394 mil euros (14,24 por cento).

Perto de metade do financiamento (1,3 milhões) vem de fundos públicos - Instituto do Cinema e do Audiovisual, Centro Nacional de Cinematografia de França, fundo Eurimages do Conselho da Europa.

O canal francês Arte e a televisão pública alemã ZDF participam com um total de 600 mil euros, verba similar ao investimento de distribuidores de cinema, o que garante perto de 44 por cento do total, assim como pontos de exibição do filme, em salas europeias e em canais de televisão.

O restante investimento provém de fundos próprios das produtoras envolvidas: a portuguesa O Som e a Fúria, de Luís Urbano, a francesa Shellac Sud e a alemã Komplizen Film.

Do orçamento total, 76,58 por cento será investido em Portugal.

Miguel Gomes, distinguido com os prémios da Inovação e da Crítica, no Festival de Cinema de Berlim, em 2012, pela anterior longa-metragem, «Tabu», acabou de estrear, no Festival de Veneza, a curta-metragem «Redemption», também inspirada em personagens da atualidade - os políticos Passos Coelho, Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e Sílvio Berlusconi.

Nas palavras de Miguel Gomes, realizador nascido em Lisboa em 1972, os quatro políticos «estão presos afetivamente a qualquer coisa do seu passado». «Estão melancólicos por algo que se passou na vida deles e à qual estão agarrados, procurando a redenção», disse à Lusa.



Lurdes Baeta leu esta notícia

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