O Chipre tornou-se no quinto país europeu a pedir auxílio financeiro internacional. A sua pequena dimensão valeu-lhe pouco destaque nos jornais, especialmente porque dividiu as atenções com a gigante Espanha, cujo resgate à banca foi acordado quase ao mesmo tempo. Mas afinal, de quanto dinheiro - e para quê - precisa o Chipre?
O principal problema do país, o segundo mais pequeno da Zona Euro, é o setor financeiro, particularmente exposto à Grécia, com quem tem óbvias relações históricas. Com a crise helénica e o perdão de parte da dívida grega, com perdas reais de 75% para os investidores, os bancos cipriotas foram fortemente afetados.
A contabilização dessas perdas obrigava os bancos cipriotas a reforçarem os seus capitais para cumprirem os rácios exigidos pelos reguladores europeus até ao fim de junho. Mas os bancos não conseguiram reunir os capitais pelos seus próprios meios, e precisam da ajuda do Estado.
País foi arrastado pela crise grega, que deixou setor bancário de rastos. Ainda não se sabe de quanto vai precisar, mas austeridade é certa
Só o maior banco do país, o Banco Popular, necessita de cerca de 1,8 mil milhões de euros, o equivalente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Agora, também o Banco do Chipre, o maior em concessão de crédito, necessita de 500 milhões. Só para a recapitalização da banca, são precisos mais de 2,3 mil milhões.
O problema é que o Estado também não está nas melhores condições para ajudar a banca. Além de estar em recessão (a economia deverá contrair-se 1% este ano e a taxa de desemprego recorde está próxima de 11%), o Chipre registou um défice de 6,3% do PIB em 2011 e, para este ano, tem uma meta de 2,5%. Ou seja, atravessa um exigente processo de consolidação. E o acesso ao mercado de financiamento está vedado, com taxas de juro proibitivas, devido ao seu estatuto de «lixo» nas principais agências de rating.
Nos últimos tempos, o Estado cipriota tem sobrevivido à conta de um empréstimo bilateral da Rússia, no valor de 2,5 mil milhões de euros e a baixas taxas de juro. Mas esse dinheiro acaba no final do ano.
Por isso, a expetativa no mercado é que o Chipre peça até 10 mil milhões, mais oito mil do que necessita para a banca, destinados a financiar o próprio Estado. A verificar-se, o valor representa mais de metade do PIB cipriota, que ronda os 17,3 mil milhões.
O valor do empréstimo internacional dependerá da avaliação da equipa de técnicos já enviada pela troika (FMI, BCE e Comissão Europeia) a Nicosia, onde chegaram na passada segunda-feira. Os técnicos das três entidades estão desde terça-feira a trabalhar para avaliar as necessidades da banca mas também as contas do país. Começaram por reuniões com o banco central e o ministro das finanças, mas vão também reunir-se com sindicatos, confederações patronais e gestores dos principais bancos. A missão da troika termina dia 6 de junho, sexta-feira.
Em troca da ajuda, o Chipre terá certamente de implementar medidas que corrijam o seu trajeto, quer em termos orçamentais, quer económicos, além de corrigir a situação no setor bancário.
O ministro das finanças do Chipre, Vasos Shiarly, tem tentado acalmar os receios do povo cipriota, que teme medidas de austeridade tão pesadas como as que foram aplicadas à Grécia e a Portugal, mas o Governo considera que grande parte das reformas que poderiam ser exigidas ao país estão já a ser adotadas. O país continua, no entanto, a estudar empréstimos bilaterais com outros países, nomeadamente a Rússia ou a China, onde espera conseguir melhores condições que junto da troika.
O estatuto de «paraíso fiscal» não deverá ser um dos tópicos a negociação, mas espera-se que a troika sugira cortes salariais no setor público, cuja fatura com salários representa cerca de 33% da despesa pública (das mais altas da Zona Euro).
O Chipre continua a estudar empréstimos bilaterais com a Rússia e a China e o Presidente cipriota disse já que «as condições oferecidas pela Rússia são mais favoráveis (que as da troika). A Rússia não impõe condições, além das taxas de juro baixas» disse Demetris Christofias.
| Felipa Garnel leu esta notícia |