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2012-07-05 15:56h

Descida dos juros: boa para quem deve, má para quem poupa

A descida das taxas de juro decidida esta quinta-feira pelo Banco Central Europeu (BCE), para um novo mínimo histórico de 0,75%, traz boas e más notícias. E não resolve os problemas da economia, avisam os analistas.

O corte do preço do dinheiro beneficia quem tem créditos, nomeadamente à habitação, já que tende a fazer baixar as Euribor, mas é negativa para quem tem depósitos bancários.

«Se, por um lado, vão baixar as taxas de crédito à habitação que já tinham sido contratadas, o que é positivo para quem tem empréstimos, por outro lado, não podemos descurar o facto de existirem muitos aforradores, que também dependem dos juros dos depósitos a prazo, que, no fundo, são as suas poupanças, para viverem. Essa baixa de taxa afeta negativamente essas pessoas que terão menos rendimento dos seus aforros», salientou o gestor de ativos do Banco Carregosa, Rui Bárbara, à Lusa.

Analistas avisam que problemas da economia não se resolvem com esta medida Mesmo no crédito, os efeitos deste corte e das consequentes descidas das Euribor (no prazo a seis meses, atingiu um mínimo histórico de 0,92%) não devem ter impacto nos novos empréstimos.

«Obviamente que os empréstimos indexados às Euribor como os do crédito à habitação vão ter um efeito positivo, mas os novos empréstimos vão continuar a estar sujeitos a spreads elevado devido às dificuldades de financiamento da banca», apontou o economista Filipe Garcia.

Ainda assim o balanço global é positivo, já que se está «a baixar o custo do dinheiro como um todo» para a economia da zona euro, que está em recessão, acrescentou.

Países do sul e suas empresas com dificuldades de financiamento

No entanto, «para os países do Sul da Europa e, nomeadamente Portugal, as condições de acesso a novo crédito por parte dos particulares ou das empresas continua muito difícil, pela falta de liquidez que existe no mercado bancário português», reconhece Rui Bárbara.

Daí que, acrescentou, as empresas portuguesas estejam cada vez mais empenhadas nas emissões obrigacionistas diretas aos pequenos aforradores.

«As empresas, apesar de sólidas, estão com dificuldades em recorrer à banca e pagam taxas de juro que, não sendo exorbitantes, são atrativas para o pequeno investidor que vê as suas poupanças nos bancos terem baixas remunerações porque as taxas estão em queda», justificou.

Queda da taxa não resolve problemas da economia

Para o economista, a baixa da taxa de juro do BCE «não chega» para resolver o problema da falta de liquidez para as famílias e para as empresas, porque o problema da crise da dívida soberana dos países do Sul da Europa tem reflexos no sistema bancário.

«São precisas mais medidas para desbloquear a questão da liquidez», declarou, considerando necessária a criação de «uma entidade central europeia responsável pela supervisão e com capacidade de intervenção em toda a banca da zona euro, para aliviar a ligação negativa entre os problemas da divida publica dos países do Sul e o setor bancário desses países».

A decisão do BCE terá também um efeito reduzido na economia, defendeu o economista da IMF, Filipe Garcia. Até porque, para este analista, o grande problema não é a falta de liquidez.

«Quem a tem não a cede e quem precisa dela não a consegue obter», sublinhou Filipe Garcia, considerando que a decisão de cortar a taxa de depósito para zero pode influenciar o excesso de liquidez junto do BCE.

«Neste momento estão parqueados cerca de 700 mil milhões de euros no BCE, esse dinheiro está no BCE e não nos agentes económicos. Esta descida é uma forma de desincentivar estes depósitos», explicou.

«Não se pode esperar que [a redução] venha a materializar-se na resolução dos problemas de financiamento da economia, não há agentes económicos a queixarem-se da taxa de juro de referência estar alta, e sim do acesso ao crédito. A eficácia do corte da taxa não é nula, mas é reduzida», comentou.



Cláudia Lopes leu esta notícia

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