Em julho de 1974, quando a ditadura militar caía na Grécia, nascia Alexis Tsipras, o revolucionário que tenciona liderar um governo de esquerda e rasgar o acordo com a troika, se vencer as eleições deste domingo e se conseguir os aliados necessários para uma maioria absoluta.
Ao contrário dos políticos gregos tradicionais, o líder da Coligação da Esquerda Radical (Syriza) não está ligado a famílias poderosas e cresceu numa época de liberdade política. Aos 16 anos, já aparecia na televisão como porta-voz de um movimento estudantil que protestava contra as reformas do governo conservador. Nessa altura, pertencia à juventude comunista e foi na militância que conheceu Betty Baziana, a namorada da adolescência que ainda hoje é a sua companheira.
Aos 37 anos, Alexis Tsipras tornou-se o rosto do cansaço da austeridade e conquistou sobretudo o voto dos mais jovens, preocupados com os cortes na saúde e na educação, nos salários e nas pensões, e no aumento do desemprego e das falências. A geração que viu os partidos tradicionais falharem acredita que, afinal, há alternativa.
O líder do Syriza personificou a luta anti-austeridade e fez o mundo político e económico tremer. Os seus opositores dizem que é um «conto de fadas»...
Nas eleições de 6 de maio, o Syriza arrancou um surpreendente segundo lugar, com quase 17% dos gregos a preferirem votar na Esquerda Radical, fugindo aos partidos tradicionais. «O seu domínio está a acabar depois de terem saqueado o país», avisou Tsipras. No entanto, chegada a sua vez de negociar uma coligação, falhou. Terá nova tentativa no próximo domingo, sendo que as últimas sondagens, realizadas antes da campanha eleitoral, indicavam uma possível subida até aos 30%, numa luta taco-a-taco com a Nova Democracia de Antonis Samaras.
«Ele teve um grande papel no sucesso do partido, principalmente porque é um político que não se distancia das pessoas. Ele consegue falar com as pessoas e é genuíno», explicou à AP Sofia Sakorafa, membro do Syriza.
Alexis Tsipras é engenheiro civil, não gosta de usar gravata, veste-se casualmente, gosta de futebol e tem um retrato de Che Guevara no seu gabinete. Olha para a Grécia e constata cinco anos consecutivos de recessão, o desemprego acima dos 22% e uma média de 900 gregos que ficam sem emprego todos os dias.
«Falência não é quando os bancos não têm dinheiro. Falência é o que estamos a viver, a destruição dos fundos de pensão, os hospitais sem dinheiro e sem medicamentos, as escolas sem livros e as crianças que chegam com fome pela manhã», declarou no parlamento, em fevereiro.
Com este discurso, o líder do Syriza está a fazer tremer as instituições políticas e financeiras na Europa e no mundo. Não acredita que o prolongar dos prazos do acordo ou o ajuste das metas funcionem e não defende a saída do euro, mas o caminho que propõe torná-la-á aparentemente inevitável.
Os seus opositores são sobretudo políticos tradicionais e analistas dos mercados. «O Syriza está a vender ao povo um conto de fadas com populismo e propaganda do pior. Estão a fazer de conta que conseguem resolver os problemas do país com uma varinha mágica», apontou Theodoros Pangalos, ex-vice-primeiro-ministro, à rádio Real FM.
A Coligação da Esquerda Radical é uma mistura de partidos e grupos de esquerda, que se tornou um íman dos intelectuais europeístas, sem espaço no Partido Comunista Grego (KKE), que deseja abandonar o projeto europeu, ou no Pasok, cujos governos são em parte culpados pela crise em que o país se encontra.
«A primeira ação do governo de esquerda será cancelar os termos do resgate e as leis aprovadas para implementar a austeridade», alertou Tsipras, que no próximo domingo tentará chegar à Mansão Maximos, residência oficial do primeiro-ministro grego, onde poderá, desde logo, marcar a diferença: é que Alexis e Betty poderão ser o primeiro casal a viver em união de facto a lá entrar.
| Felipa Saraiva leu esta notícia |