«Deve parecer estranho para as pessoas noutros países que vejamos a Constituição como se tivesse sido escrita pelo próprio Deus. E que, por causa do que se achava que estava certo entre 1776 e 1789, temos de viver assim no séx. XXI.» Na CNN, o realizador Michael Moore devolve assim à origem o debate sobre o uso de armas nos Estados Unidos, de novo na ordem do dia depois do massacre de Aurora, no Colorado.
Começa por ser estranho para as pessoas noutros países pelo simples facto de que nenhum outro país tem uma realidade parecida, nenhum outro tem tantos cidadãos armados. Estima-se que haja 270 milhões de armas nas mãos de civis nos Estados Unidos. E que por ano haja mais de 20 mil mortes causadas por armas. Moore, que dedicou a este assunto o documentário «Bowling for Columbine», inspirado no massacre no liceu de Columbine em 1999, faz as contas, num texto publicado no seu site: «Temos DUAS Auroras a cada dia em cada ano! Pelo menos 24 americanos são mortos por dia por pessoas com armas (oito a nove mil por ano). E isto não conta as mortes acidentais ou os suicídios com armas.»
Depois há aquela estranheza a que Moore se referia no início, o argumento que serve de base a estes números: a Segunda Emenda da Constituição, escrita há quase 250 anos. Diz isto: «Sendo uma milícia bem regulada necessária à segurança de um Estado livre, o direito das pessoas de ter e portar armas não deve ser infringido.» É nesta frase que assentam os argumentos dos defensores de armas nos Estados Unidos.
O país com mais civis armados do mundo olha para dentro, depois do massacre de Aurora
O debate reacende-se a cada tragédia e divide a América. Questionam-se as leis, tenta-se perceber por que está tão enraizada a cultura de armas e o porquê da violência. Foi assim outra vez depois do massacre de Aurora, quando um homem matou 12 pessoas e feriu mais de cinquenta num cinema onde passava em estreia o novo filme de Batman.
Entre os defensores do uso de armas apareceu esta semana, por exemplo, o rapper Ice-T. Com o segundo argumento mais utilizado pelos defensores do uso de armas: não são as armas que matam as pessoas, são as pessoas. O músico e ator falou ao Channel 4 de Londres, recusando estabelecer uma ligação entre o uso de armas e casos como o do Colorado: «Se alguém quer matar gente, não precisa de uma arma. Pode colocar explosivos no corpo. Fazem isso a toda a hora.»
O debate voltou a fazer-se também no plano político. Mas ao mais alto nível, a poucos meses das eleições, não foi assunto de primeiro plano. Se Mitt Romney, o candidato republicano à presidência, se limitou a dizer que «considerar que leis contra os instrumentos da violência farão a violência desaparecer é uma perceção errada», Barack Obama acabou por ir um pouco mais longe. O atual presidente prometeu «trabalhar por um consenso para a redução da violência».
O debate político sobre armas vai sempre dar a um nome, transversal a este tema. A NRA, National Rifle Association, um lobby com longos tentáculos políticos. O poder da NRA junto dos políticos é um dado adquirido nos Estados Unidos. Mas também há quem diga que esse poder tem sido sobrestimado. «As pessoas têm dificuldade em nomear uma mão cheia de membros do Congresso que tenham perdido o lugar por causa da NRA ou de um voto sobre armas. Mas a NRA gastou muito dinheiro e muitos anos a construir essa reputação, e muitos democratas foram na conversa», defende Mark Glaze, responsável por um lobby com intenções opostas, «Mayors Against Illegal Guns».
A organização de que Glaze é o rosto revelou esta semana uma sondagem junto de donos de armas, metade deles atuais ou antigos membros da NRA, segundo a qual dois terços desses donos defendia maior controlo sobre quem compra armas.
Mas para cada sinal num sentido há outro em sentido oposto. Como este. Desde o massacre de Aurora, o número de pessoas que se candidatou a uma licença de porte de arma no Colorado aumentou. Entre a sexta-feira do crime e domingo houve 2.887 pedidos, 43 por cento mais que em igual período da semana anterior.
| Luís Esparteiro leu esta notícia |