A festa estava preparada na sede da Nova Democracia (ND) e o discurso de vitória estava escrito para aquela noite de 6 de maio. No entanto, à medida que os resultados chegavam, o estado de choque apoderava-se dos conservadores gregos, que ficaram longe da maioria que esperavam nas eleições legislativas.
Quando até as negociações para uma coligação falharam, porque o parceiro mais provável, o Pasok, foi ultrapassado pelo Syriza, o líder da ND percebeu que algo tinha de mudar até ao próximo domingo, dia em que os gregos voltam às urnas.
Aos 62 anos, com muita experiência política, incluindo como ministro de três pastas diferentes, não terá sido fácil transformar a imagem do veterano líder conservador. Nascido no seio de uma família influente, Antonis Samaras cumpriu todos os passos de um político tradicional, muitas vezes lado a lado com outras figuras que entretanto se afastaram com culpas no cartório da crise, como o ex-primeiro-ministro George Papandreou, com o qual partilhou um dormitório durante os tempos de escola.
A Nova Democracia enganou-se à primeira: afinal, o inimigo não é o Pasok. E o seu líder aprendeu a lição
Para as eleições de maio, a mensagem da ND foi confusa e apoiou-se nas sondagens para apontar ao inimigo errado: Evangelos Venizelos, que negociou a ajuda externa como ministro das Finanças. Em 2010, Samaras opôs-se ao primeiro resgate do país, mas juntou-se ao governo de unidade nacional para aprovar o segundo, este ano. No entanto, na campanha, defendeu que este último devia ser renegociado.
Preocupado com o crescimento dos Gregos Independentes e da Aurora Dourada, Samaras colocou a sua linha política mais à direita, com mensagens nacionalistas e anti-imigrantes. «Foi uma má opção. Devia estar mais aberto ao centro. Ouviu apenas dois ou três conselheiros e não contactou com as pessoas», lamentou fonte da ND.
O líder conservador encontrava-se com cidadãos em reuniões pequenas e agendadas. Estava convencido que não precisava de fazer mais. Subestimou Alexis Tsipras, o líder da Esquerda Radical, descontraído, jovem, que levou os gregos a castigarem os dois partidos normalmente mais votados.
«Ele pensou que estava a lutar contra o monstro Venizelos. Ninguém lhe disse que a maior ameaça seria o pequeno Tsipras», disse fonte da Nova Democracia à AP.
A 6 de maio, Antonis Samaras arrecadou 19% dos votos. As últimas sondagens para as eleições deste domingo davam conta de uma percentagem à volta dos 25% e confirmaram que Tsipras é quem está na corrida pelos 50 lugares extra no parlamento atribuído ao partido mais votado.
Pelo que se pode ver dos últimos dias de campanha, o líder conservador aprendeu com o erro. Já foi possível ver Samaras sem casaco, junto à multidão, sem medo de ser vaiado pelos furiosos eleitores que já não acreditam na mesma receita de sempre.
«A Nova Democracia melhorou claramente a campanha e Samaras está a ouvir mais as pessoas. A batalha está a ser travada sobre o euro e a sua mensagem é clara», explicou o analista político John Loulis, ouvido pela Reuters.
A estratégia é nova, porque o alvo também o é, e passa por convencer os gregos que a Nova Democracia é a única opção para se manterem no euro (as sondagens indicam que 80% da população não quer sair da moeda única). «O dracma significaria a morte», afirmou Samaras à televisão grega.
A troca de argumentos entre os conservadores e a Esquerda Radical endureceu, ignorando os outros protagonistas. Entretanto, Antonis Samaras conseguiu um acordo com a Aliança Democrática de Dora Bakoyanni, que o próprio expulsou da ND por ter apoiado o primeiro resgate em 2010. «Samaras aprendeu com os erros e está recetivo a mais opiniões. Ele agora ouve», disse um crítico de Samaras dentro da ND, que não quis ser identificado.
Antonis Samaras já sorri e cumprimenta os eleitores, eliminou os tempos de antena com mensagens nacionalistas e parece um político completamente diferente. No domingo, os gregos dirão se acreditam ou não nesta mudança.
| Paula Magalhães leu esta notícia |