Os serviços secretos alemães são acusados de ter destruído ficheiros com informação sobre um dos mais violentos grupos neo-nazis do país, precisamente no dia em que as autoridades judiciais decidiram investigar a ligação desse grupo a uma série de homicídios com motivações raciais que ocorreram na Alemanha nos últimos anos.
O ministro do Interior alemão, Hans-Peter Friedrich, anunciou já que pediu explicações sobre o sucedido ao BND, o Serviço Federal de Inteligência. O caso foi revelado pela agência DPA e pelo jornal «Suddeutsche Zeitung», e a destruição dos documentos, a 11 de novembro de 2011, terá sido explicada com o facto de já ter passado o prazo legal para poder ser guardada informação pessoal. Mas também é avançada a hipótese de haver nesses documentos informação sobre os informadores da polícia infiltrados na organização, que os serviços de inteligência não queriam ver divulgados.
O grupo neo-nazi, que se auto-intitulava Nationalsozialistischer Untergrund (NSU), estava há muito no radar das autoridades, ao abrigo da chamada Operação Rennsteig, que entre 1997 e 2003 reuniu informação sobre uma organização neo-nazi chamada Thuringer Heimatschutz, da qual saiu o NSU, recorrendo para isso a vários informadores.
Foi precisamente em novembro de 2011 que se estabeleceu a ligação entre o NSU e uma série de homicídios com motivações raciais, que ficaram conhecidos como os assassinatos em série do Bósforo e vitimaram nove imigrantes turcos e gregos.
Atuação das autoridades em relação a grupo acusado de mortes em série sob suspeita
As autoridades fizeram a ligação quando apareceram mortos dois membros do NSU, Uwe Mundlos and Uwe Böhnhardt, numa caravana a arder. A polícia, que concluiu que tinham cometido suicídio, descobriu ao revistar a caravana o seu apartamento, que também ardeu no mesmo dia, uma arma que os ligou às mortes do Bósforo. E também a arma de uma agente da polícia morta no atentado à bomba de Colónia, em 2004, que terá igualmente sido perpetrado pelo NSU.
Enquanto se apuram os factos sobre a destruição da documentação em causa, são pelo menos evidentes as falhas da polícia na exposição daquela organização. A atuação das autoridades foi alvo de uma comissão parlamentar, que recomendou agora a criação de uma base de dados para reunir informação sobre elementos da extrema-direita, de modo a evitar as lacunas que foram notórias neste caso.
| Felipa Saraiva leu esta notícia |