Dezenas de milhares de refugiados estão a fugir dos combates no Sudão e, após caminharem duas ou três semanas até à fronteira com o Sudão do Sul, deparam-se com outro grave problema: a falta de água.
Segundo as Nações Unidas, mais de 35 mil pessoas terão percorrido este longo caminho durante o último mês. «Vimos várias mortes durante essa caminhada, sobretudo de desidratação e exaustão», afirmou à AP Tara Newell, dos Médicos Sem Fronteiras, que se encontra no campo de refugiados de Jamam.
Os que conseguem chegar, têm de andar quilómetros à procura de água. A trabalhadora humanitária viu uma criança a morrer à sua frente: «Morrer de uma doença tropical é triste, mas morrer de sede é simplesmente horrível».
Mulheres, idosos e crianças caminham quilómetros e muitos não sobrevivem. Trabalhadores humanitários não conseguem fazer nada
Não há números oficiais sobre as mortes nesta região, mas Peter Struijf, trabalhador humanitário da Oxfam que também se encontra em Jamam, avisa que este campo de refugiados, que alberga 20 mil pessoas, vai ficar sem água numa semana.
«É muito triste que, com este número de refugiados, o nosso maior desafio seja simplesmente ter algo para beber», acrescentou Tara Newell.
A maioria dos refugiados são crianças, mulheres e idosos, porque os homens ficam para trás a combater. De acordo com dados recolhidos no terreno pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), os que chegam aos campos dizem que há cerca de 40 mil pessoas a caminho do Sudão do Sul.
Para piorar a situação, vai começar a época das chuvas, que pode durar seis meses. Os reservatórios de água vão encher, mas também será necessário deslocar os refugiados e transportar comida e medicamentos por estradas de terra que poderão ser cortadas com as esperadas inundações.
«Não estamos a rezar para que chova, o que nem é normal em África. Estamos a rezar por outra semana de tempo seco para conseguirmos retirar toda a gente», explicou Peter Struijf.
No Sudão do Sul, há ainda o campo de Yida, com cerca de 50 mil refugiados, que fogem dos bombardeamentos e dos combates entre o exército do Sudão e um grupo de rebeldes associado ao Sudão do Sul, o Exército de Libertação do Povo do Sudão.
Estes dois países viveram mais de duas décadas de guerra civil, que terminou com um acordo de paz em 2005 e uma votação que deu a independência ao Sudão do Sul, em julho de 2011. Os conflitos, no entanto, não pararam até hoje.
Segundo um relatório recente do ACNUR, 2011 é o ano com mais refugiados desde 2000, principalmente devido às crises na Costa do Marfim, na Líbia, na Somália e no Sudão.
| Paulo Almoster leu esta notícia |