E se parte da resposta para compreender determinados comportamentos estiver escondida num lugar aparentemente improvável: nas bactérias que vivem no nosso intestino e na nossa boca?
Um estudo desenvolvido por investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), da Universidade do Porto, encontrou associações entre determinados microrganismos presentes no organismo e traços associados à psicopatia.
Os resultados colocam em cima da mesa uma possível ligação entre o chamado microbioma, o conjunto de microrganismos que vivem no nosso corpo, e processos relacionados com as emoções e o comportamento social.
Mas há uma ressalva fundamental: os investigadores não dizem que as bactérias provocam psicopatia. “Não podemos afirmar que as bactérias causam traços de psicopatia”, explica Benedita Sampaio-Maia, coordenadora do estudo e investigadora do i3S. O que a equipa observou foi uma relação entre determinados perfis bacterianos e características comportamentais específicas.
O que encontraram os investigadores?
Para realizar o estudo, a equipa recrutou 200 portugueses, que foram avaliados através de escalas psicológicas destinadas a medir traços psicopáticos, empatia e ansiedade.
Ao mesmo tempo, foram recolhidas amostras de fezes, saliva e sangue. O objetivo era perceber se existiam diferenças nos microrganismos presentes no intestino e na cavidade oral e se essas diferenças poderiam estar associadas a determinadas características comportamentais.
E os investigadores encontraram algumas associações. Entre os principais resultados estão relações entre determinados tipos de bactérias intestinais e traços de psicopatia. A equipa analisou também substâncias presentes nas fezes e encontrou diferenças relacionadas com glicose e taurina.
A taurina é uma molécula produzida pelo organismo que participa em várias funções, incluindo processos relacionados com o cérebro e o metabolismo. No estudo, níveis destas substâncias foram associados a níveis mais elevados dos traços comportamentais analisados.
Impulsividade, frieza emocional e comportamento antissocial
A psicopatia não corresponde simplesmente a uma pessoa que é “má” ou pouco simpática. Trata-se de um conjunto de características que pode incluir impulsividade, manipulação, ausência de empatia e comportamento antissocial.
A origem destes traços é complexa e envolve diferentes fatores, nomeadamente genéticos e ambientais. É precisamente por isso que os investigadores procuram compreender melhor os mecanismos biológicos que podem estar associados a estas características.
O novo estudo acrescenta uma possível peça ao puzzle: a relação entre o microbioma e o funcionamento do cérebro. A chamada comunicação entre intestino e cérebro tem sido alvo de crescente interesse científico. Os microrganismos presentes no organismo podem participar em processos metabólicos e produzir ou influenciar substâncias que, por sua vez, podem estar relacionadas com diferentes funções do organismo.
Neste caso, os investigadores procuraram perceber se poderia existir uma relação semelhante com características comportamentais associadas à psicopatia.
As bactérias não “causam” psicopatia
É aqui que os resultados precisam de ser interpretados com cautela. O estudo identificou associações, mas não demonstrou uma relação de causa e efeito. Ou seja, não é possível concluir, com base nestes resultados, que uma determinada bactéria faça com que uma pessoa desenvolva traços psicopáticos.
Também não significa que seja possível analisar as bactérias presentes no intestino ou na boca de alguém e determinar se essa pessoa tem psicopatia.
Carolina Costa, primeira autora do estudo, explica que os resultados mostram que determinadas bactérias intestinais e orais estão associadas a traços de psicopatia na população estudada, sugerindo que os microrganismos do corpo podem estar relacionados com processos ligados às emoções e ao comportamento social. É uma associação que merece ser estudada, e não um teste biológico à psicopatia.
Poderá a alimentação ter um papel no futuro?
Apesar das limitações, os investigadores acreditam que este tipo de investigação poderá abrir novas portas. Uma das possibilidades passa pela futura identificação de marcadores biológicos associados à saúde mental.
Outra hipótese, ainda mais distante, seria perceber se intervenções capazes de alterar o microbioma, através da alimentação, probióticos ou outras estratégias, poderiam vir a ter algum impacto em determinados processos relacionados com o cérebro e o comportamento.
Para já, porém, isso é apenas uma possibilidade de investigação futura. O estudo contribui sobretudo para uma área que tem vindo a ganhar importância: a relação entre o intestino, a boca, os microrganismos que vivem no nosso corpo e o cérebro.
E deixa uma pergunta em aberto: até que ponto aquilo que acontece no nosso microbioma poderá influenciar a forma como pensamos, sentimos e nos relacionamos com os outros?