Se está a pensar recorrer a um crédito pessoal, há uma mudança que não deve ignorar: o Banco de Portugal (BdP) aprovou uma nova recomendação macroprudencial que, desde 1 de agosto de 2026, torna mais rigorosa a forma como os bancos avaliam a capacidade financeira de quem pede dinheiro emprestado.
A alteração não se limitou ao crédito à habitação, como sugeria a comunicação social no princípio do verão: aplicou-se também ao crédito ao consumo, que inclui os créditos pessoal, automóvel, etc., para além dos cartões de crédito.
Na prática, o montante que consegue pedir emprestado passa a depender de uma análise muito mais rigorosa do seu orçamento. Neste artigo, explicamos-lhe concretamente o que mudou, porquê e como pode preparar-se.
O que é a taxa de esforço e porque tem influência sobre o seu salário
A taxa de esforço, também conhecida pela sigla DSTI (Debt Service-to-Income, em Inglês), corresponde à percentagem do rendimento mensal líquido do agregado familiar destinada ao pagamento de prestações de crédito. O seu cálculo segue esta fórmula:
Taxa de esforço = (Total de encargos financeiros mensais/Rendimento líquido mensal) x 100
Na parcela dos encargos financeiros mensais, somam-se todas as prestações que o cliente já paga, como a prestação da casa, o crédito automóvel, o crédito pessoal ou os cartões de crédito com saldo em dívida;
No rendimento líquido mensal, entram o salário e outras receitas regulares, como rendas ou pensões.
Exemplo prático: um agregado com um rendimento líquido de 1500 € e encargos financeiros mensais de 450 € apresenta uma taxa de esforço de 30%. Regressemos à fórmula para tirarmos a prova:
Taxa de esforço = (450/1500) x 100 = 0,3 x 100 = 30%
Quanto mais elevada for esta percentagem, menor é a margem que resta para despesas correntes ou imprevistos e maior é o risco que o banco associa ao empréstimo.
É por isso que, mesmo que receba um bom salário, se já tiver vários créditos ativos, a sua taxa de esforço poderá ficar acima do limite aceitável e condicionar a aprovação de um novo pedido.
O que mudou com a nova regra do Banco de Portugal
No início de julho de 2026, o BdP aprovou uma nova recomendação macroprudencial que reduziu o limite máximo da taxa de esforço de 50% para 45%. A medida aplica-se às avaliações de solvabilidade realizadas desde 1 de agosto de 2026, independentemente da data de início dos processos, e abrange tanto o crédito à habitação como os vários tipos de crédito ao consumo.
Além da redução do limite geral, a margem de exceções de que os bancos dispunham para aprovarem créditos acima desse valor também foi reduzida, de 15% para 10% do montante concedido por cada instituição por semestre.
Importa referir, contudo, que esta continua a ser uma recomendação e não uma norma vinculativa: os bancos podem, em situações justificadas, aprovar créditos acima do limite, embora tenham agora menos margem para o fazerem.
Segundo o BdP, o objetivo é conter o crescimento do endividamento das famílias e tornar mais prudente a avaliação da capacidade financeira dos mutuários.
Quanto pode realmente pedir emprestado sem comprometer o seu orçamento
Um agregado familiar com um rendimento líquido mensal de 2000 € podia, anteriormente, ter prestações de crédito no valor total de 1000 €, correspondentes a uma taxa de esforço de 50%.
Com o novo limite de 45%, esse mesmo agregado passa a poder comprometer, no máximo, 900 € por mês com o conjunto de todos os créditos que tiver, incluindo as prestações já existentes.
Quanto maior for o número de créditos ativos, menor será a margem disponível para um novo pedido, independentemente de se tratar de um crédito pessoal, automóvel ou qualquer outro tipo de financiamento.
Nesse sentido, antes de avançar com um novo pedido de crédito, calcule a sua taxa de esforço, de modo a conseguir perceber que margem lhe resta dentro deste novo limite.
Os 3 motivos mais comuns para um banco lhe recusar a concessão de um crédito (mesmo auferindo um bom vencimento)
Ter um salário elevado não garante, por si só, a aprovação de um crédito. Entre os motivos mais frequentes de recusa estão:
1. Uma taxa de esforço acima do limite aceite pela instituição: se as prestações que já paga, somadas à nova prestação pretendida, ultrapassarem o limite definido pelo banco, o pedido poderá ser recusado, independentemente do rendimento que apresentar;
2. Incidentes registados na Central de Responsabilidades de Crédito (CRC) do BdP: atrasos ou incumprimentos em créditos anteriores, ainda que regularizados entretanto, podem condicionar a análise por algum tempo;
3. Instabilidade profissional ou rendimento insuficiente para o montante solicitado: os contratos de trabalho a termo certo ou rendimentos irregulares aumentam o risco associado ao pedido, mesmo quando o valor mensal recebido é considerado adequado.
De acordo com o n.º 3 do Artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 133/2009, de 2 de junho, que regula o crédito ao consumo:
“Se o pedido de crédito for rejeitado com fundamento nas consultas a que se referem os números anteriores, o credor deve informar o consumidor imediata, gratuita e justificadamente desse facto, bem como dos elementos constantes das bases de dados consultadas, salvo se a prestação destas informações for proibida por disposição do direito comunitário ou nacional, ou se for contrária a objetivos de ordem pública ou de segurança pública”.
Como aumentar as suas hipóteses de aprovação e pagar menos juros
Antes de submeter um novo pedido de crédito pessoal, alguns cuidados podem fazer a diferença, nomeadamente:
● Reduzir ou amortizar créditos existentes, algo que ajuda a reduzir a sua taxa de esforço e a aproximar-se do novo limite de 45%;
● Manter um historial de pagamentos sem atrasos e confirmar que não tem incidentes ativos na CRC do BdP é igualmente importante, já que qualquer incumprimento pendente reduz a probabilidade de aprovação;
● Apresentar documentação atualizada evita atrasos na análise, sendo que associar um segundo titular ao pedido pode reforçar a garantia de pagamento perante o credor;
● Por fim, comparar simulações de diferentes entidades ajuda a perceber qual a proposta mais adequada ao seu perfil, tanto no que diz respeito à taxa de esforço como à taxa de juro.
Quem chega ao banco com as contas organizadas tem, à partida, mais facilidade em obter uma resposta favorável.
Em suma
Com a nova recomendação do BdP já em vigor desde agosto de 2026, conhecer a sua taxa de esforço e organizar o orçamento antes de pedir dinheiro emprestado é agora ainda mais importante.
Se está a considerar solicitar um crédito pessoal, pode simular as condições disponíveis e perceber, com base no seu rendimento e nos créditos que já tem, qual o montante que consegue efetivamente pedir dentro dos novos limites.