Bater Bafo ou bafão
Bater Bafo ou bafão

Bater bafo: uma brincadeira com quase 100 anos que parece recente aos olhos dos portugueses

IOL
5 jun., 10:04
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Descrita como a “arte de virar um monte de cromos repetidos com a mão” já teve até campeonatos

A febre da caderneta do Mundial de Futebol de 2026 voltou a tomar conta dos recreios portugueses, trazendo pais e filhos para o hábito antigo de colecionar cromos. Há crianças a trocar cromos, a procurar os mais difíceis e a tentar completar as páginas o mais depressa possível, pedindo saquetas novas todos os dias. Mas há outra tendência que está a chamar a atenção e a surpreender muitos pais em Portugal: o jogo do "bafo" ou "bafão".

Para muitas crianças, os cromos já não servem apenas para preencher a caderneta. Servem também para jogar. O objetivo é simples: empilhar cromos e tentar virá-los através de uma pancada com a mão em forma de concha. Os cromos que virarem passam para o jogador.

Para muitos pais a brincadeira parece uma novidade. Mas a verdade é que o bafo é uma tradição infantil brasileira com raízes que remontam pelo menos às décadas de 1930 e 1940.

Ao IOL, o brasileiro Eduardo, de 38 anos, conta como nos anos 90 esta já era uma brincadeira popular no Rio de Janeiro: "Jogávamos com qualquer colecção de cromos do Campeonato Brasileiro, no chão do recreio da escola. Sentados no chão de perna cruzada e quem conseguisse virar os cromos ficava com eles".

Uma brincadeira com história no Brasil

Os registos históricos mais antigos conhecidos sobre o bafo estão associados a um fenómeno infantil que marcou gerações no sul do Brasil. Em 1928, uma empresa de Curitiba começou a comercializar uns rebuçados muito populares chamados "Zequinha", embrulhados em cromos colecionáveis com personagens, animais, meios de transporte e temas do quotidiano. Com o tempo, os cromos tornaram-se tão populares que muitas crianças compravam os rebuçados sobretudo para aumentar as suas coleções.

Segundo um artigo da Biblioteca Pública do Paraná, “no jogo do bafo, cada adversário colocava as suas figurinhas viradas de costas no chão. Aquele que, batendo nelas com a palma da mão, conseguisse desvirá-las, ganhava-as. Às vezes, uma discreta cuspidinha na palma da mão, sem que o adversário visse, ajudava na desvirada”.

Porque se chama "bafo"?

O nome está relacionado com a forma de jogar. Os participantes colocam vários cromos numa pilha e batem com a mão junto deles, provocando uma deslocação de ar que ajuda a virar alguns cromos. Os cromos que ficam virados passam para quem efetuou a jogada. A designação "bafo" é utilizada há várias décadas no Brasil e está associada precisamente a esse movimento de ar criado pela pancada da mão.

Campeonato de “bafo” foi notícia na CNN Brasil

A brincadeira é tão popular no Brasil que a CNN noticiou um campeonato em São Paulo, ocorrido a 17 de maio. Tratou-se de uma ação gratuita promovida pela marca Rexona em parceria com a Panini.

 

Uma tradição que atravessou gerações

Ao contrário do que muitos pais portugueses possam pensar, o bafo não surgiu por causa do TikTok ou do YouTube. Porém, deverá ter sido através das redes sociais que atravessou o Atlântico. Como escreve o site brasileiro R7, “tão antigo quanto o próprio hábito de colecionar figurinhas [cromos], o jogo de bafo tem como objetivo ganhar os cromos de um monte com o vento provocado pela batida da mão em formato de concha”.

Nesta reportagem publicada em 2018, o R7 descrevia o bafo como uma brincadeira tradicional associada à coleção de cromos, recordando que fez parte da infância de várias gerações de brasileiros.

Como chegou a Portugal?

Não existe uma explicação oficial para a popularização do bafo entre as crianças portuguesas. No entanto, a influência da cultura digital brasileira surge como uma das hipóteses mais plausíveis. Atualmente, muitas crianças portuguesas acompanham diariamente criadores de conteúdos brasileiros no YouTube, TikTok, Instagram e plataformas de streaming, consumindo não apenas expressões e palavras, mas também brincadeiras e hábitos culturais.

O próprio nome da brincadeira aponta nessa direção. Enquanto o termo "bafo" é amplamente conhecido no Brasil há várias décadas, a maioria dos portugueses que hoje têm entre 40 e 50 anos não se recorda de ter visto esta prática nos recreios durante a sua infância.

 

 

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