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Covid-19: Este abril teve cinco vezes mais mortes do que o do ano passado. São números preocupantes? É preciso proteger quem está a morrer

O investigador Miguel Castanho sublinha que “não é para subvalorizar a covid-19” e o médico Gustavo Tato Borges acrescenta que é errada a ideia de que a pandemia acabou, mas há fatores que justificam o aligeirar das medidas restritivas. A letalidade é agora menor do que no ano passado, mas é preciso proteger os mais suscetíveis, alertam o especialistas

Daniela Costa Teixeira
5 mai, 07:00
5 mai, 07:00

Ao colocar lado a lado o número diário de novos casos e de óbitos por covid-19 em abril do ano passado e abril deste ano, mês em que caíram as máscaras, vê-se que este ano houve mais casos e morreram mais pessoas infetadas com SARS-CoV-2. O que é diferente em abril do ano passado e abril deste ano? Este número deve preocupar?

Portugal decidiu virar a página e deixar as restrições para trás, grande parte das medidas de contenção foram levantadas em fevereiro e o Ministério da Saúde deixou a cair o uso de máscara na maior parte dos espaços públicos mesmo quando a mortalidade estava acima do limiar de 20 mortes por milhão de habitantes a 14 dias definido pelo Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC). À data, a taxa de mortalidade estava nos 27,9 por milhão.

A situação ainda merece atenção, alertam os especialistas, a variante BA.5 está em tendência crescente. Por outro lado, a letalidade está menor e a gravidade da doença também. Vive-se mesmo uma nova fase da pandemia.

O mesmo mês, contextos diferentes

Olhando para os dados de abril deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, há mais casos e mais óbitos agora, e isso é um facto. Mas o contexto em que a pandemia estava nos dois períodos era completamente diferente.

Em abril do ano passado, dominava a linhagem B.1.1.7 (variante Alpha com origem no Reino Unido), Portugal ainda ressacava do impacto do Natal de 2020 e estava a meio de um plano de desconfinamento que só terminou a 3 de maio e que previa uma abertura das atividades a três ritmos e de acordo com a gravidade apresentada por cada região. Só na última fase, em maio, é que os restaurantes, cafés e pastelarias passaram a funcionar sem limite de horário, mas ainda com lotação limitada, por exemplo No dia 4 de abril, domingo de Páscoa, a circulação entre concelhos tinha sido proibida, e houve o dever geral de confinamento.

No ano passado, em abril, a média diária de novos casos foi de 573 e morreram 117 pessoas durante todo o mês. O teletrabalho era ainda uma realidade e apenas um milhão de portugueses tinha as duas doses da vacina contra a covid.

O mesmo mês deste ano começou em estado de alerta, que foi prolongado mas com novas medidas. Vigoravam poucas medidas de contenção (a maioria tinha caído em fevereiro), tendo a máscara - que era das poucas medidas em vigor - deixado de ser obrigatória na maioria dos espaços públicos no final de abril, e o certificado de vacinação já não era pedido para muitas das atividades, mantendo-se apenas para viagens.

Entretanto, os portugueses deixaram de ter dois dois testes gratuitos por mês e deixou de ser necessário o resultado negativo a um teste ou o certificado de vacinação para fazer visitas hospitalares.

Entre 29 de março a 25 de abril deste ano, segundo o site da DGS, Portugal teve uma média de 8.527 casos por dia, com um total de 548 óbitos (valor a 28 dias).

Agora, a variante dominante é a Ómicron. Mais de 92% dos portugueses da população portuguesa está completamente vacinada, mas apenas 58% tem a dose de reforço - muito por culpa das infeções do início de ano.

Comparando os dois períodos homólogos, Portugal está muito mais relaxado este ano quanto à pandemia, apesar de a incidência continuar crescente e isso se refletir na mortalidade. Os internamentos estão instáveis, mas há uma ligeira descida nas hospitalizações em cuidados intensivos. 

Serão os mais 500 óbitos de abril o novo normal de Portugal? “Este nível de mortalidade deverá manter-se estável nas próximas semanas”, diz Gustavo Tato Borges, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública.

Um conceito importante: letalidade

Este ano tivemos cerca de 17 vezes mais casos e 4,6 vezes mais óbitos em abril do que no mesmo mês do ano passado. Mas, ao mesmo tempo, há uma menor taxa de letalidade - proporção de pessoas diagnosticadas com SARS-CoV-2 que morrem infetadas. Ou seja, a gravidade da doença é menor, assim como o risco de morte. 

Mas, porque é que morrem mais pessoas agora tendo em conta que a taxa de vacinação é elevada e a variante Ómicron é menos gravosa para a saúde?

É uma questão de números, quanto mais pessoas ficarem doentes maior é a probabilidade de haver uma pessoa mais frágil que mesmo vacinada vai acabar por falecer. É um jogo, quanto mais gente houver [infetada], maior é o risco”, começa por explicar Gustavo Tato Borges.

A positividade, que atualmente se encontra nos 29,1% numa média a sete dias, está bem acima dos 4% que tinham sido referenciados pela DGS e pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA). Quando a ministra da Saúde anunciou que iria deixar cair as máscaras na maioria dos espaços fechados, a positividade estava nos 25%.

À Lusa, o virologista Pedro Simas já tinha defendido que a elevada mortalidade que se regista no país poderia, em parte, estar relacionada com a “fase sazonal dos vírus respiratórios, em que existe sempre um número mais elevado de infeções e, infelizmente, de mais mortes em comparação com o resto do ano”.

Em abril do ano passado a taxa de letalidade estava nos 0,6% e em abril deste ano fixou-se nos 0,2%. Segundo a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, “a taxa de letalidade (...) dá uma ideia da gravidade da doença, uma vez que nos indica a percentagem de mortes causadas especificamente por essa doença (mortalidade específica)”.

O que isto indica é que, neste momento, a mortalidade não reflete a evolução da situação na globalidade, na generalidade, e deve-se a fatores que serão mais relacionados com um grupo mais fragilizado”, diz o professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa e investigador no Instituto de Medicina Molecular (IMM) Miguel Castanho.

Segundo Gustavo Tato Borges, “temos mais infetados, mas temos apenas cinco vezes mais óbitos, e é este jogo de números que, juntamente com a proteção com a vacina e medidas prevenção e esta variante que é mais ligeira, faz com que tenhamos uma menor letalidade, mortos por total de doentes de covid, e que justifica a noção de que estamos numa fase menos perigosa. Mas é uma noção enganadora”.

Uma variante menos grave: Ómicron

À CNN Portugal, Miguel Castanho diz que “a comparação com o ano passado tem de ser feita de forma mais cautelosa”, e destaca o “contexto diferente, de confinamento, de medidas mais duras contra o contágio, diferente do atual”. À boleia dessas medidas, “no ano passado conseguimos levar o número de mortes a zero” em alguns dias, exemplifica. 

Mas além do contexto que se vivia nos dois meses de abril em análise, há outros fatores em jogo que ajudam a entender o cenário atual e o porquê de haver um maior número de casos e mortes e de isso representar uma menor letalidade e gravidade. 

Nesta equação, devem entrar fatores como a variante Ómicron - que agora é dominante e que é mais contagiosa mas menos causadora de doença grave, sobretudo quando comparada com as suas antecessoras, a Alpha e a Delta, e estando associada a um risco de internamento reduzido em 75% e de morte em 86%.

A Ómicron veio alterar as regras do jogo em termos de pandemia, é mais transmissível, mas causa muito menos danos em termos relativos”, destaca Miguel Castanho.

Uma pergunta: quem são as vítimas?

Apesar de o número de óbitos ter sido mais elevado em abril deste ano, Henrique Oliveira disse, em declarações à CNN Portugal a propósito das próximas previsões da pandemia, que apenas um terço dos óbitos atualmente registados por covid-19 se devem efetivamente à doença. As restantes referem-se a casos de pessoas que tiveram outra causa de morte mas que testaram positivo antes de falecerem.

Sobre este ponto, Miguel Castanho diz que “não deveria ser a questão”. O investigador defende que é certo que “o tipo de doenças” que as pessoas que morrem podem ter - ou os acidentes fatais que podem sofrer - “tem uma ligação à covid-19, reflete uma condição de fragilidade”, pois “a covid-19 é um fator que facilita a morte, então é um fator extremamente importante, mesmo que seja um fator adjuvante”. 

“É a conjunção das duas coisas [infeção e doença prévia] que leva à morte e se queremos combater a morte temos de ver tudo. Não é para subvalorizar a covid-19”, frisa Miguel Castanho.

Também Gustavo Tato Borges defende que o foco deve manter-se na covid-19. “Estão a morrer as pessoas com 75 anos ou mais, é o grosso das mortalidade, mas há um desconsiderar destas mortes”.

Embora Miguel Castanho saliente que já foi possível “chegar à conclusão” que grande parte das “pessoas que estão a morrer são as não vacinadas” e, por isso, “a não vacinação tem a sua quota parte neste número de mortes, o que nos deveria levar a tomar medidas”, o especialista defende que “falta conhecer os fatores que distinguem as pessoas que estão a morrer”, de modo a perceber quais as melhores estratégias para prevenir estas mortes.

Uma estratégia: proteger os mais suscetíveis...

Henrique Oliveira estima que nos próximos dias se possa chegar aos 15 mil casos por dia, mas afasta o cenário de catástrofe. No entanto, o fim da pandemia não foi ainda declarado pela Organização Mundial da Saúde e todos os cenários estão ainda em aberto: desde a melhoria à chegada de uma nova e pior variante.

O médico Gustavo Tato Borges diz que “temos duas comparações difíceis, uma é com o pico da Delta que tinha menos infeções mas com muito mais mortalidade, pessoas ficaram alarmadas e hospitais cheios. Agora temos mais pessoas a falecer, mais do que o desejado, mas como a letalidade é menor em termos proporcionais as pessoas consideram a doença menos preocupante”, algo que diz que é um erro.

As pessoas consideram que isto está normal, mas a situação epidemiológica é tudo menos normal, nesta fase deveríamos ter meia dúzia de casos e neste momento não estamos a conseguir conter a onda da Ómicron. Está controlada, mas não contida”, frisa o médico.

“O vírus continua com uma velocidade de adaptação e de progresso que é assinalável”, alerta Miguel Castanho, que destaca que os quase quatro milhões de casos de infeção, mesmo com reinfecções à mistura, conferem “imunidade natural” a uma boa parte da população portuguesa, já ela grandemente protegida pela vacinação, mas destaca que “em termos de margem de pandemia o que interessa são os que não foram infetados". "Temos de ter um plano de combate à pandemia que passa por proteger as pessoas mais suscetíveis”, salienta.

Parte desse plano, defende o investigador, deve passar por vacinar os não vacinados, e que correm um maior risco de adoecer e, por consequência, morrer, e “progredir” no que diz respeito à própria vacinação. Para Miguel Castanho, o país tem de “atualizar as vacinas” e não “estar a vacinar com n doses”. O especialista defende ainda a importância dos “medicamentos que foram aprovados” e que podem fazer a diferença.

...e avançar na vacinação

Quanto ao que ainda pode e deve ser feito no combate à pandemia, Gustavo Tato Borges apela à consciencialização e à avaliação do contexto em que a pessoa se insere ao longo do dia. “Temos de continuar atentos, com cuidados”, frisa, e não hesita em lamentar o fim dos testes gratuítos. “É uma pena, poderiam ter mantido mais um mês”, diz.

A vacinação continua a ser um escudo-protetor e sobre este ponto Gustavo Tato Borges diz que “a quarta dose nos mais idosos será mais vantajosa se administrada mais perto do outono/inverno, para potenciar as suas defesas na altura em que é provável haver uma maior propagação do vírus. Agora não será vantajosa, a não ser que haja um aumento significativo de novos casos”.

“A vacinação dos que foram infetados recentemente é importante, mas para evitar que eles venham a desenvolver nova doença e que ela possa ser grave. Como eles estiveram infetados, estiveram mais protegidos para esta doença até agora. Vacinar vai ajudar a minimizar a probabilidade de voltarem a ser infetados e assim minimizar o risco de continuar a haver uma propagação da doença de forma intensa”, adianta ainda o médico. 

O médico de saúde pública defende também que é importante continuar a valorizar a doença e os números que ela apresenta. “Neste boletim que saiu ontem, já se verifica o aumento de casos associado ao fim do uso de máscara, uma semana depois temos um valor de incidência maior. As pessoas assumem que tudo está resolvido e precisamos de ter cuidado, para minimizar o impacto nos idosos”, diz o médico. “Tem de se ter consciência, não só moral como social, de perceber que somos uma roda na engrenagem que é a sociedade, vamos estar a influenciar os outros”, continua.

Gustavo Tato Borges recomenda, por fim, o arejamento dos espaços, seja com janelas ou mecanismos de ventilação mecânicos, o “uso de máscara de forma voluntária e consciente de acordo com o risco do dia a dia, a pessoa deve refletir se usa máscara ou não”, e manter “a higienização das mãos e a etiqueta respiratória”. Deve-se ainda, reforça, “usar a máscara quando há sintomas respiratórios", não deixando "negligenciar nenhum sintoma”.

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