Menino morre aos 13 anos após passar nove em coma. Foto: pexels
Menino morre aos 13 anos após passar nove em coma. Foto: pexels

Criança de dois anos foi eutanasiada. É o primeiro caso conhecido em crianças tão pequenas

IOL
28 set., 09:46

É o primeiro caso desde as novas regras de 2024. A criança nasceu prematura, sofreu graves danos cerebrais e morreu perto dos dois anos.

Uma criança com menos de dois anos morreu no final de 2025, na sequência de uma decisão médica de "interrupção ativa da vida" (eutanásia), naquele que é o primeiro caso conhecido de uma criança entre 1 e 12 anos abrangido pelas novas regras em vigor nos Países Baixos.

A criança tinha nascido prematuramente, às 26 semanas e três dias de gestação, e sofreu complicações muito graves desde os primeiros momentos de vida. Mais tarde, exames revelaram extensos danos cerebrais, que provocaram, entre outros problemas, paralisia cerebral espástica e uma grave limitação da visão.

O caso foi agora analisado pela comissão neerlandesa responsável por avaliar estas situações. A conclusão: o médico atuou de forma cuidadosa e podia razoavelmente ter concluído que a interrupção da vida era a única solução para pôr fim a um sofrimento considerado insuportável e sem perspetiva de melhoria.

O que aconteceu à criança?

A criança nasceu durante uma viagem ao estrangeiro, às 26 semanas e três dias de gravidez, e foi internada numa unidade de cuidados intensivos neonatais.

A extrema prematuridade provocou várias complicações graves, incluindo infeções e episódios de sepsis.

Quando tinha cerca de quatro meses e meio, foi transferida para os Países Baixos. Uma ressonância magnética revelou então danos muito extensos no cérebro. As lesões estavam associadas a paralisia cerebral espástica e a uma perturbação visual de origem cerebral.

A situação agravou-se com o aparecimento, aos oito meses, de uma forma grave de epilepsia infantil, caracterizada por espasmos epiléticos difíceis de controlar.

Apesar dos tratamentos, as crises continuaram. A criança tinha episódios frequentes de desconforto, apresentava dificuldades em dormir e chegou a passar várias noites praticamente sem dormir. Os medicamentos utilizados para controlar a epilepsia provocavam também efeitos secundários importantes.

Porque é que a situação era considerada tão grave?

O relatório da comissão, divulgado pela imprensa internacional e citado pelo Daily Mail, descreve um quadro clínico extremamente complexo.

Quando morreu, a criança tinha quase 24 meses, mas o seu desenvolvimento era estimado em cerca de seis semanas.

Não tinha desenvolvido linguagem verbal e a perturbação visual dificultava ainda mais a possibilidade de estabelecer contacto.

As limitações motoras e cognitivas eram muito graves e a previsão médica era de que a criança permanecesse dependente de terceiros para todas as atividades quotidianas.

Havia ainda problemas respiratórios. A criança tinha dificuldade em libertar e expelir as secreções das vias respiratórias, o que provocava problemas de respiração e aumentava o risco de infeções. Existia também uma perturbação da deglutição, com risco de aspiração de alimentos ou conteúdo gástrico para os pulmões.

Os médicos consideravam elevada a probabilidade de a criança morrer ainda muito jovem devido a complicações relacionadas com o seu estado de saúde.

Porque decidiram pôr termo à vida da criança?

Segundo o parecer oficial, os pais e o médico concluíram que, apesar das intervenções médicas e não médicas realizadas, não existia uma melhoria significativa e duradoura da situação.

O médico considerou que o sofrimento não resultava apenas da epilepsia, mas do conjunto do quadro clínico: os danos cerebrais irreversíveis, a paralisia cerebral, a deficiência visual, o atraso extremo do desenvolvimento e as crises epiléticas de difícil tratamento.

A comissão concluiu que o médico podia ter chegado à convicção de que a criança sofria de forma insuportável e sem perspetiva de melhoria e que não existia uma alternativa razoável capaz de eliminar esse sofrimento.

Houve outros médicos a avaliar o caso?

Sim. E este foi um dos pontos analisados pela comissão. Inicialmente, outros médicos consultados não consideraram que estivesse demonstrado um sofrimento continuamente insuportável. Embora reconhecessem o enorme desconforto provocado pelas crises epiléticas, entenderam que estas não eram permanentes e que ainda poderiam existir alternativas, incluindo outros medicamentos e opções de cuidados paliativos.

O médico responsável procurou então uma nova segunda opinião, junto de outro especialista fora da sua região.

Esse médico chegou a uma conclusão diferente: considerou que o sofrimento da criança era claramente visível e que resultava não apenas das crises, mas sobretudo dos danos cerebrais permanentes e da ausência de qualquer perspetiva razoável de desenvolvimento.

Concluiu também que não existia outra forma razoável de reduzir ou eliminar esse sofrimento. Foi esta avaliação que acabou por sustentar a decisão.

A criança podia pedir a própria morte?

Não. E esta é uma das principais diferenças entre este caso e a eutanásia convencional nos Países Baixos.

A legislação neerlandesa relativa à eutanásia pressupõe um pedido voluntário e ponderado do próprio paciente. A comissão oficial explica que as crianças com menos de 12 anos não podem formular esse pedido nos termos da Lei da Eutanásia.

Por isso, juridicamente, o caso agora conhecido é enquadrado como interrupção da vida de uma criança entre 1 e 12 anos, e não como uma eutanásia ao abrigo da lei geral.

Ainda assim, vários meios de comunicação internacionais, incluindo o Daily Mail, referem-se ao caso como a primeira “eutanásia” de uma criança com menos de 12 anos que não era recém-nascida.

O que mudou na Holanda em 2024?

Até 2024, não existia um enquadramento específico para estas situações envolvendo crianças entre 1 e 12 anos.

As novas regras entraram em vigor em 1 de fevereiro de 2024 e destinam-se a casos extremamente excecionais: crianças com doença grave, sofrimento insuportável e sem perspetiva de melhoria, quando não existe uma alternativa razoável para aliviar esse sofrimento, incluindo através dos cuidados paliativos.

A decisão é tomada pelo médico em conjunto com os pais e, quando possível, a criança também deve ser envolvida no processo. O médico tem de basear a decisão no conhecimento médico existente e demonstrar que atuou com o devido cuidado.

Quantas crianças podem estar abrangidas por estas regras?

O número é muito reduzido. Quando o novo enquadramento foi criado, as autoridades neerlandesas estimaram que poderia abranger apenas um pequeno número de casos por ano.

A regulamentação não criou, portanto, uma possibilidade geral para os pais decidirem terminar a vida de uma criança gravemente doente.

Aplica-se apenas a situações médicas extremas, nas quais se considera que a criança sofre de forma insuportável e sem perspetiva de melhoria e que não existe outra solução razoável para pôr fim a esse sofrimento.

Quem fiscaliza a decisão?

Existe uma comissão especificamente responsável por analisar estes casos. O organismo é composto por quatro médicos de diferentes especialidades, um jurista e um especialista em ética.

A sua missão é verificar se o médico cumpriu os critérios de cuidado exigidos. Depois de avaliar o processo, a comissão envia as suas conclusões ao Ministério Público neerlandês, que pode analisar se a atuação respeitou a lei.

Neste caso, a conclusão da comissão foi clara: o médico agiu com o devido cuidado.

Como morreu a criança?

O relatório oficial revela que não existiam ainda orientações específicas sobre a forma de realizar uma interrupção ativa da vida nesta faixa etária.

De acordo com o documento, o médico discutiu previamente as opções paliativas com os pais. Estes não quiseram optar por uma sedação prolongada que conduzisse posteriormente à morte por ausência de alimentação e hidratação, e o médico considerou que essa não seria uma solução razoável para a situação concreta.

Perante a decisão final, o médico optou, a pedido dos pais, por um procedimento em que a criança foi progressivamente colocada num estado de sedação profunda, até morrer.

A comissão analisou também esta parte do procedimento e concluiu que o médico tinha atuado cuidadosamente.

É a primeira vez que isto acontece na Holanda?

É o primeiro caso conhecido de eutanásia de uma criança entre 1 e 12 anos desde a entrada em vigor das novas regras.

A regulamentação existe desde 2024, mas este é o primeiro caso desta faixa etária que foi oficialmente comunicado e posteriormente avaliado pela comissão.

A criança tinha quase dois anos, o que torna o caso particularmente significativo: não se trata de um recém-nascido, mas de uma criança que viveu durante quase dois anos com um quadro clínico extremamente grave.

O caso foi tornado público depois de a comissão concluir a avaliação e divulgar os seus fundamentos.

A decisão não encerra, naturalmente, o debate sobre os limites da medicina, os direitos das crianças e o papel dos pais perante situações de sofrimento extremo. Mas estabelece um precedente concreto nos Países Baixos: pela primeira vez, as novas regras criadas para crianças entre 1 e 12 anos foram aplicadas a um caso real.

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