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O "Efeito Cristiano Ronaldo" já está a afetar a Seleção Nacional: começa agora o problema que pode valer milhões

Mafalda Mourão
2 out., 08:27

A saída de Cristiano Ronaldo já teve impacto na conta da Seleção. Saiba o que está em jogo para a FPF em audiência, marca e patrocínios

Em cerca de 24 horas, a conta oficial da Seleção Nacional no Instagram sofreu uma quebra de centenas de milhares de seguidores, numa demonstração imediata de uma realidade que Portugal terá agora de enfrentar: durante mais de duas décadas, a marca da equipa das quinas cresceu lado a lado com a marca Cristiano Ronaldo.

Os números exatos variam consoante o momento em que foram recolhidos. Dados do HypeAuditor indicavam 25.005.473 seguidores na conta @portugal em 30 de setembro, tendo sido registada posteriormente uma perda superior a 300 mil. Outros acompanhamentos apontaram para quebras superiores a 700 mil, enquanto o Record noticiou uma perda próxima de um milhão em 24 horas.

Independentemente da fotografia exata do número final, há um dado que já não é meramente especulativo. A saída de Ronaldo teve um impacto imediato na audiência digital da Seleção.

Mas porque é que Ronaldo vale tanto para a Seleção?

Cristiano Ronaldo não é apenas um jogador dentro de campo. É uma audiência global.

Em julho, a UEFA contabilizava 233 internacionalizações pelo jogador português, que é o futebolista masculino com mais jogos por uma seleção nacional. No Mundial de 2026, Ronaldo chegou também aos 146 golos por Portugal, mantendo o recorde mundial de golos internacionais.

A dimensão da sua marca pode ser percebida também através dos números digitais.

Um estudo da agência de marketing desportivo Nossa Sports e da plataforma Felton, divulgado após o Mundial de 2026, calculou que as 29 publicações de Ronaldo durante a competição geraram um valor estimado de 85,2 milhões de euros em audiência, enquanto as 565 publicações da Seleção representaram 68,1 milhões.

Outro cálculo, baseado na métrica True Audience Value, chegou a uma conclusão semelhante: a marca Cristiano Ronaldo terá gerado cerca de 92,9 milhões de euros em valor de audiência digital durante o Mundial, contra aproximadamente 76,5 milhões atribuídos à Seleção Nacional.

Os números não significam que Ronaldo “valha” esse montante diretamente para a Federação. São métricas de valor de audiência e não receitas da FPF. Mas ajudam a perceber uma coisa: há uma diferença entre ter Cristiano Ronaldo associado à Seleção e não o ter.

O que acontece quando a principal estrela deixa de aparecer?

É aqui que começa o verdadeiro problema para a Federação Portuguesa de Futebol. A Seleção tem uma marca própria, patrocinadores próprios e uma audiência que não depende exclusivamente de um jogador. A FPF tem, aliás, acordos comerciais que continuam muito para além de Ronaldo.

A PUMA é parceira oficial dos equipamentos das seleções desde 2025; a Galp renovou a parceria com a FPF até 2030; o Continente prolongou igualmente o acordo até ao Mundial de 2030; e a TAP tornou-se companhia aérea oficial da equipa das quinas para 2026.

Por isso, não há neste momento fundamento para dizer que estes patrocinadores vão abandonar a Seleção ou que a FPF vai perder milhões em contratos publicitários por causa da saída de Ronaldo.

O que existe é outra questão: quanto vale, para estas marcas, a exposição de uma Seleção que tem Cristiano Ronaldo como rosto, e quanto valerá uma Seleção sem ele?

Essa resposta só poderá ser dada pelos próprios contratos, pelos resultados comerciais e pelas audiências futuras.

E há um sinal que a Federação não pode ignorar

A quebra de seguidores é precisamente esse sinal. Se uma parte significativa das pessoas que acompanhava a conta oficial da Seleção estava ali também por causa de Cristiano Ronaldo, então a Federação enfrenta um desafio que vai muito além de substituir um avançado dentro de campo.

Tem de conseguir transformar fãs de Ronaldo em fãs da Seleção. Durante anos, a camisola de Portugal foi também uma camisola de Ronaldo. A imagem do capitão, os golos, os recordes, as celebrações e até os momentos de polémica fizeram parte da narrativa internacional da equipa portuguesa.

A própria FPF reconheceu há vários anos o peso que uma personalidade com enorme audiência pode ter na comunicação e na projeção da marca Portugal. Mais recentemente, a Federação tem procurado desenvolver uma estratégia comercial própria, através da FPF Comercial e da valorização do ecossistema das suas marcas e competições.

O desafio agora é perceber se essa estratégia consegue compensar a saída da figura que, durante anos, funcionou como o maior amplificador individual da Seleção.

Há dinheiro em jogo?

A FPF fechou a época 2024/25 com receitas superiores a 131 milhões de euros, um recorde de rendimentos na história da Federação, e apresentou um resultado operacional positivo de 3,397 milhões de euros.

Não é possível atribuir estas receitas à presença de Ronaldo. Da mesma forma, não é possível calcular agora quanto dinheiro a FPF perderia se o jogador deixasse definitivamente a Seleção.

O impacto comercial poderá surgir, por exemplo, através da audiência dos conteúdos, do interesse internacional pelos jogos, da venda de produtos, do valor de ativações com patrocinadores ou da capacidade de atrair novos parceiros.

Mas estes efeitos terão de ser medidos com dados concretos.

Uma coisa é certa: a marca Ronaldo já demonstrou que consegue gerar uma escala de atenção superior à da própria Seleção em determinados contextos digitais.

E quem pode ocupar esse espaço?

Esta é a pergunta mais difícil de responder. Portugal tem jogadores com enorme projeção internacional, como Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Rafael Leão, Vitinha, João Félix, Nuno Mendes ou Rúben Dias, entre outros. Mas não é possível afirmar que qualquer um deles possa simplesmente substituir Ronaldo enquanto fenómeno mediático.

Não se trata apenas de golos ou de qualidade futebolística. Trata-se de alcance global, décadas de reconhecimento, milhões de seguidores e uma relação construída com várias gerações de adeptos.

Ronaldo chegou à Seleção em 2001. Ao longo desse percurso tornou-se o jogador com mais internacionalizações por Portugal e o melhor marcador da história da equipa.

A sucessão, portanto, não é apenas desportiva. É também comercial, digital e simbólica.

A Seleção pode sobreviver sem Ronaldo?

Desportivamente, a resposta já começou a ser dada. Portugal venceu a Dinamarca por 4-2 em Copenhaga, na Liga das Nações, no primeiro jogo da equipa sem Ronaldo depois da saída do estágio. João Cancelo, Gonçalo Ramos, Vitinha e João Félix marcaram os golos portugueses.

Mas um jogo não resolve a questão maior. A Seleção pode continuar a ganhar sem Cristiano Ronaldo. O desafio da FPF é outro: conseguir que o público continue a olhar para a Seleção pelo que ela é , e não apenas pelo jogador que durante 23 anos foi o seu rosto mais reconhecido.

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