Um desafio perigoso nas redes sociais, carros em alta velocidade e a procura incessante por visualizações. Na Irlanda, uma tendência de condução irresponsável associada ao TikTok está a provocar indignação depois de um acidente que matou cinco adolescentes.
A história foi revelada pelo The Guardian, que descreve uma prática em que jovens filmam as próprias viagens enquanto conduzem de forma perigosa, procurando transformar a adrenalina, as perseguições policiais e até os acidentes em conteúdo para as redes sociais.
O caso que desencadeou a polémica aconteceu na madrugada de 16 de agosto. Um BMW circulava em contramão na autoestrada M9, no condado de Kildare, quando chocou com um Hyundai onde seguia uma família. Morreram cinco jovens, com idades entre os 15 e os 18 anos. No outro veículo seguiam três irmãs e o filho de sete anos de uma delas. Os quatro ficaram gravemente feridos.
Segundo o The Guardian, alguns dos adolescentes já eram conhecidos das autoridades e vários tinham anteriormente publicado vídeos de condução perigosa, uma prática durante anos associada ao chamado joyriding: conduzir carros roubados ou sem autorização pelo simples prazer da velocidade e do risco.
“Estão a pensar nos likes”
Para Mary Aiken, professora de ciberpsicologia forense na Universidade de East London, as redes sociais estão a acrescentar uma nova dimensão a um comportamento que já existia.
“Estão a pensar nos likes, estão a pensar no reconhecimento”, afirmou a especialista, citada pelo The Guardian.
Aiken descreve este fenómeno como um comportamento híbrido: os jovens estão simultaneamente a conduzir no mundo real e a produzir conteúdo para o mundo digital. A exposição pública pode, segundo a especialista, amplificar a predisposição para correr riscos e diminuir a perceção das consequências. O perigo deixa de ser apenas o objetivo da condução. Passa também a ser parte do espetáculo.
TikTok no centro das críticas
A tragédia colocou o TikTok no centro das críticas na Irlanda. O The Guardian noticia que novos vídeos de condução perigosa terão surgido na plataforma após o acidente, aumentando a pressão sobre as empresas tecnológicas.
O TikTok diz estar a monitorizar conteúdos relacionados com o caso e a remover vídeos e contas que violem as suas regras. A plataforma afirma que proíbe conteúdos que mostrem comportamentos suscetíveis de serem imitados e que possam provocar danos físicos graves, incluindo condução perigosa.
A empresa recusou, entretanto, um convite para comparecer perante uma comissão parlamentar irlandesa, decisão que foi classificada como um “insulto” ao público pelo presidente da comissão.
O debate já ultrapassou as redes sociais. Há também quem exija penas mais duras para comportamentos como conduzir em contramão numa autoestrada e quem questione a capacidade da polícia para perseguir veículos em fuga sem aumentar ainda mais o risco.
Para Graham Kavanagh, antigo agente da polícia irlandesa, o problema não nasceu com o TikTok. A condução perigosa por diversão existe há décadas. Mas as redes sociais podem ter transformado o risco numa forma de obter atenção, estatuto e aprovação.