A preocupação excessiva com a alimentação e a procura de um corpo perfeito podem transformar hábitos saudáveis em comportamentos compulsivos, com impacto na saúde mental, física e social, alertam especialistas.
Porque estão os especialistas preocupados?
Psicólogos, endocrinologistas e médicos do desporto salientam a importância da alimentação saudável e do exercício físico, mas alertam para os riscos do excesso de treino, da restrição alimentar e da pressão exercida pelas redes sociais, sobretudo entre os jovens.
O que pode acontecer quando a preocupação com o corpo se torna obsessiva?
“A obsessão pelo corpo, por exercício físico e por comer de forma saudável pode causar sofrimento e prejudicar a saúde física, mental e social, portanto, a saúde como um todo”, alertou Miguel Morais Coutinho, presidente da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Quais são os primeiros sinais de alerta?
Segundo o psicólogo, um dos sinais é a perda de flexibilidade na alimentação e na rotina de exercício físico, que passam a ser marcadas por regras rígidas e extremas.
Como perceber se o exercício está a tornar-se um problema?
Miguel Morais Coutinho explica que o exercício deixa de ser uma atividade prazerosa e passa a gerar ansiedade quando a rotina é interrompida ou quando os objetivos não são atingidos.
Que impacto pode ter no dia a dia?
O tempo dedicado ao planeamento das refeições e dos treinos aumenta, reduzindo a disponibilidade para o trabalho, para o lazer e para as relações sociais.
Onde está o limite entre um hábito saudável e um problema?
“As ideias que todos temos de uma alimentação saudável e de ter um corpo saudável fazem todo o sentido até um determinado limite. Quando este é ultrapassado nas várias dimensões, então, podemos estar no âmbito de um problema”, sublinhou.
Que papel desempenham as redes sociais?
A exposição constante a conteúdos que promovem determinados corpos e estilos de vida pode dificultar o reconhecimento do problema.
Porque é difícil perceber que existe um problema?
“Como é que eu vou achar que tenho um problema quando depois tenho este aplauso social?”, questionou Miguel Morais Coutinho.
Quem é mais afetado por esta pressão?
Segundo o especialista, o fenómeno afeta sobretudo os jovens, devido à maior exposição às redes sociais, mas também pode atingir desportistas, profissionais de saúde e figuras públicas.
Que perturbações podem surgir?
Nos casos mais extremos podem surgir comportamentos associados à ortorexia, caracterizada pela obsessão com a alimentação considerada saudável, e à vigorexia, marcada pela procura compulsiva de exercício físico e de uma determinada imagem corporal.
Existem fatores que aumentam o risco?
Sim. A ansiedade, a baixa autoestima, experiências de bullying, traumas relacionados com a imagem corporal e perturbações alimentares como anorexia e bulimia podem aumentar a vulnerabilidade.
Mais pessoas estão a procurar ajuda?
Miguel Morais Coutinho admite ter a perceção de que há cada vez mais pessoas a recorrer a apoio clínico, muitas vezes incentivadas por familiares ou amigos.
Porque é tão difícil sair deste ciclo?
“As pessoas não são felizes a viver este processo. Este ciclo de preocupação, rigidez e compulsão é muito forte, e sair destas amarras é bastante complexo”, afirmou.
Os riscos limitam-se à saúde mental?
Não. A presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, Paula Freitas, alerta para consequências físicas importantes.
O que acontece quando existe excesso de treino?
“O exercício físico e a alimentação saudável são muito bem-vindos e as pessoas devem ter uma vida saudável. Não podemos é cair nos extremos. Ou seja, tudo na vida precisa de moderação”, defendeu.
Quais são os efeitos do chamado ‘overtraining’?
Segundo Paula Freitas, o excesso de exercício físico, sobretudo quando associado a restrição alimentar, pode provocar alterações hormonais, aumento dos níveis de cortisol e impactos negativos na massa óssea e muscular.
Os jovens correm riscos específicos?
Sim. A endocrinologista alerta que um treino demasiado intenso antes da maturação sexual pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento normal.
Existe uma síndrome associada a este problema?
Paula Freitas destacou a síndrome de deficiência relativa de energia no desporto (RED-S), que pode aumentar o risco de lesões, dificultar a recuperação física e reduzir o desempenho desportivo.
O exercício físico deve ser orientado?
“Tal como os medicamentos, o exercício também deve ser prescrito em termos de tipo, intensidade e duração”, afirmou a especialista.
O que diz a medicina desportiva sobre este tema?
A Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva recorda que o treino físico regular é um importante promotor da saúde física e mental em todas as idades.
Quando é que o treino se torna prejudicial?
Quando a frequência, o volume e a intensidade dos treinos aumentam sem recuperação adequada durante longos períodos.
Que sintomas podem surgir?
Entre os sinais de alerta estão dores musculares persistentes, problemas de sono, alterações do peso e do apetite, ansiedade, apatia, dificuldades de concentração e memória, podendo mesmo evoluir para estados depressivos.
Existem outros riscos para a saúde?
A SPMD alerta ainda para alterações hormonais, enfraquecimento do sistema imunitário, aumento da frequência cardíaca em repouso e recuperação mais lenta após lesões.
Como prevenir estes problemas?
Os especialistas recomendam identificar precocemente os sinais de alerta, reduzir temporariamente a intensidade dos treinos, adotar uma alimentação equilibrada, melhorar a qualidade do sono e seguir planos de treino seguros.
As redes sociais estão a contribuir para este fenómeno?
Embora não existam dados científicos definitivos, a Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva considera que esta realidade existe e merece uma reflexão séria por parte de profissionais de saúde, pais, professores e treinadores.