A palavra reindustrialização voltou ao debate europeu. Depois de anos em que a indústria parecia perder terreno para serviços e cadeias globais muito longas, a Europa percebeu que produzir continua a ser uma questão económica, tecnológica e estratégica. O relatório Draghi sobre competitividade europeia apontou pressões como produtividade lenta, desafios demográficos, custos de energia mais altos e concorrência global. O Clean Industrial Deal, por sua vez, liga competitividade industrial a energia acessível, descarbonização, matérias-primas, circularidade e emprego qualificado. Em Portugal, esta discussão passa por setores como a metalurgia, metalomecânica, máquinas, equipamentos, material de transporte, manutenção industrial e tecnologias de produção. É precisamente nesse espaço que a ANEME trabalha.
Reindustrialização significa o quê?
Não significa apenas abrir fábricas. Significa reforçar capacidade produtiva em áreas onde a Europa quer depender menos de terceiros e criar mais valor dentro do mercado interno. Isso exige empresas capazes de produzir com qualidade, cumprir normas, integrar tecnologia, responder a clientes internacionais e adaptar processos a exigências ambientais e digitais. Para uma PME industrial, a reindustrialização pode parecer uma palavra distante. Mas aparece em decisões muito concretas: comprar uma máquina, formar uma equipa, entrar numa cadeia de fornecimento, certificar um produto, automatizar uma etapa ou reduzir desperdício.
Que lugar tem a ANEME neste debate?
A ANEME é uma associação de empregadores de âmbito nacional, sem fins lucrativos e com estatuto de pessoa coletiva de utilidade pública. Foi criada como associação patronal em 1975, a partir da transformação do anterior Grémio dos Industriais Metalúrgicos e Metalomecânicos do Sul, fundado em 1960. A associação centra a sua atividade na representação e promoção das fileiras industriais do setor metalúrgico e eletromecânico. Além da representação, presta apoio técnico, jurídico, laboral, fiscal, económico, comercial, tecnológico e de internacionalização. Também participa em estruturas como o Pólo de Competitividade Engineering & Tooling e o PRODUTECH, e é sócia de entidades ligadas à qualidade, certificação, tecnologia industrial e energia.
## Porque é que as PME são decisivas?
As grandes estratégias europeias só funcionam se chegarem às empresas que produzem peças, equipamentos, componentes, estruturas, ferramentas e soluções técnicas. Muitas dessas empresas são PME. São elas que podem responder a encomendas de nicho, integrar cadeias de fornecimento, adaptar processos com rapidez e manter conhecimento industrial em território nacional. Mas também são elas que enfrentam mais dificuldades para acompanhar legislação, candidaturas, certificações, digitalização, financiamento, energia e falta de trabalhadores qualificados.
O que já existe no trabalho da ANEME?
O trabalho da associação toca várias peças desta agenda. O Barómetro do Setor Metalúrgico e Eletromecânico acompanha informação estatística. O Anuário do Setor organiza informação setorial. As plataformas Valor Metal, Valor Metal 2 e Valor Metal iDigital abordam modernização, sustentabilidade, circularidade, digitalização e Indústria 4.0. Na internacionalização, a ANEME tem promovido missões empresariais, participação em feiras e estudos de oportunidades em mercados estratégicos. Na formação, participa no CENFIM e desenvolveu projetos de Formação-Ação para PME. São instrumentos diferentes, mas apontam para a mesma ideia: reindustrializar exige mais do que investimento isolado. Exige informação, competências, redes e capacidade de execução.
O que falta resolver?
Portugal não parte do zero. Tem empresas industriais exportadoras, conhecimento técnico, setores com tradição e capacidade de adaptação. Mas competir na próxima fase exige escala, energia mais previsível, trabalhadores qualificados, digitalização útil e maior ligação entre indústria, tecnologia e políticas públicas. A reindustrialização não será feita por decreto. Vai acontecer empresa a empresa, investimento a investimento, trabalhador a trabalhador. Associações como a ANEME podem ajudar a tornar esse caminho menos solitário: representando o setor, traduzindo políticas para decisões práticas e dando visibilidade a uma indústria que continua a fabricar parte importante do que a economia precisa para crescer.