A chegada da inteligência artificial ao trabalho trouxe uma pergunta incómoda: que profissões ficam mais expostas? A resposta, pelo menos para já, não é tão simples como "a IA substitui tudo".
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho sobre IA generativa concluiu que o efeito dominante tende a ser a transformação e aumento de tarefas, mais do que a automação total de profissões. O impacto é maior em ocupações administrativas e de escritório, sobretudo em países de rendimento mais elevado.
Para as profissões técnicas, isto cria uma nuance importante. Muitas tarefas podem mudar com IA, sensores, automação ou software. Mas profissões que exigem trabalho presencial, manuseamento de equipamentos, manutenção, cuidado direto, instalação, cozinha, hotelaria, mecânica, eletrónica ou operação industrial não são substituídas de forma simples por uma ferramenta digital.
Porque é que algumas profissões técnicas parecem mais seguras?
As profissões técnicas combinam frequentemente conhecimento, prática e contexto. Um técnico observa uma situação, adapta-se ao local, lida com equipamento, comunica com clientes ou colegas e resolve problemas que nem sempre estão descritos num manual. Isto não significa que estejam imunes. A IA pode entrar no diagnóstico, no planeamento, na manutenção preditiva, na gestão de stocks, na comunicação com clientes, na programação, na segurança ou na análise de dados.
Mas a substituição integral é mais difícil quando o trabalho depende de ambiente físico, destreza, responsabilidade operacional e interação humana.
Como entra a ANESPO nesta discussão?
A ANESPO - Associação Nacional de Escolas Profissionais tem vários projetos que tocam este tema. O Educa 4.0 procura integrar princípios da Indústria 4.0 e critérios ESG nas escolas profissionais, preparando alunos, docentes e instituições para a transição digital e sustentável. O MiCRET trabalha microcredenciais para o setor das energias renováveis, com foco em competências digitais e verdes. Já o Teacher Acquisition olha para a falta de professores no ensino profissional e para formas de trazer profissionais da indústria para a docência.
Estes projetos mostram que a resposta à IA não se limita a criar cursos de programação. Também passa por atualizar profissões existentes.
Que competências ganham peso?
O relatório Future of Jobs 2025 do World Economic Forum aponta a mudança tecnológica, a transição verde e as alterações demográficas como forças que vão transformar o mercado de trabalho até 2030. Entre as competências em crescimento surgem literacia tecnológica, IA, big data, pensamento analítico, resiliência e aprendizagem contínua.
No ensino profissional, isto pode traduzir-se em currículos mais híbridos. Um técnico de manutenção pode precisar de ler dados de sensores. Um profissional de hotelaria pode ter de usar sistemas digitais e aplicar práticas sustentáveis. Um técnico de energias renováveis pode precisar de microcredenciais específicas ao longo da carreira. O trabalho técnico continuará a ter "mãos na massa", mas terá cada vez mais interpretação de informação, ferramentas digitais e aprendizagem ao longo da vida.
O que devem saber os alunos?
Para um jovem que está a escolher curso, a pergunta não deve ser só "esta profissão é segura?". A pergunta mais útil é: esta formação dá-me base para aprender o que vier a seguir? As profissões técnicas podem ter uma vantagem num mundo com IA porque muitas estão ligadas a necessidades concretas: reparar, cuidar, instalar, cozinhar, operar, manter, produzir. Mas essa vantagem só se mantém se a formação acompanhar tecnologia, sustentabilidade e novas exigências das empresas.
A IA não torna o ensino profissional menos relevante. Pelo contrário, pode tornar mais importante uma formação que junta conhecimento aplicado, contexto real e capacidade de adaptação. O ponto decisivo será garantir que os cursos não ficam presos ao passado enquanto as profissões mudam à volta deles.