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Tem 80 anos mas cérebro de 50 ou 60: os segredos dos “SuperAgers”

São mais velhos no cartão de cidadão do que no cérebro. É o caso da norte-americana Carol Siegler, que tem um cérebro tão aguçado como o de alguém 20 ou 30 anos mais novo.

4 dez 2022, 12:00
Carol Seigler SuperAger idosos Foto CNN cortesia Jennifer Boyle
Carol Seigler SuperAger idosos Foto CNN cortesia Jennifer Boyle

Apesar de fazer voluntariado, fazer exercício físico vários dias por semana, conviver frequentemente com amigos e familiares, ler todo o tipo de livros e fazer palavras cruzadas diariamente, Carol Siegler, de 85 anos, não para quieta.

"Sinto-me aborrecida. Sinto-me como se fosse um Corvette a ser usado como carrinho de compras”, conta Siegler, que vive em Palatine, nos arredores de Chicago.

Siegler é uma “SuperAger” cognitiva, ou seja, uma pessoa idosa que possui um cérebro tão aguçado como o de alguém 20 ou 30 anos mais novo. Faz parte de um grupo no âmbito do Northwestern SuperAging Research Program, um programa que estuda há 14 anos idosos com uma função cognitiva excecional. O programa faz parte do Mesulam Center for Cognitive Neurology and Alzheimer's Disease da Northwestern University Feinberg School of Medicine, em Chicago.

“Fiz duas audições para entrar no [concurso de televisão] 'Jeopardy!' e safei-me bem o suficiente para ser convidada para as audições presenciais, mas depois chegou o Covid”, diz Siegler.

“Quem sabe o quão bem me teria saído”, acrescenta ela com uma risada. “Quando me perguntam porque é que me inscrevi, digo sempre: ‘Posso saber muito sobre Beethoven e Liszt, mas sei muito pouco sobre Beyoncé e Lizzo’”. 

A SuperAger Carol Seigler com os seus netos (da esquerda para a direita): Alex Siegler, 23; Elizabeth Siegler, 27; Carol Siegler, 85; Megan Boyle, 18; Conor Boyle, 17; Jacob Siegler, 29. Foto cortesia Jennifer Boyle 

 

O que é um SuperAger?

Para ser um SuperAger, termo criado pelos investigadores da Northwestern, uma pessoa deve ter mais de 80 anos e ser submetida a testes cognitivos extensivos. O estatuto de SuperAger só é validado no estudo se a memória da pessoa for tão boa ou melhor que a de pessoas cognitivamente normais nos seus 50 e 60 anos de idade.

“Um dos requisitos essenciais de um SuperAger é ter uma memória episódica proeminente: a capacidade de recordar acontecimentos quotidianos e experiências pessoais passadas. E depois, os SuperAgers só precisam de ter pelo menos um desempenho médio nos outros testes cognitivos”, explica a neurocientista cognitiva Emily Rogalski, professora de psiquiatria e ciências comportamentais na Escola de Medicina Feinberg.

Apenas cerca de 10% das pessoas que se candidatam ao programa cumprem esses critérios, diz Rogalski, que desenvolveu o projeto.

“É importante salientar que, quando comparamos os SuperAgers com as faixas etárias médias, eles têm níveis semelhantes de QI, pelo que as diferenças que estamos a ver não se devem apenas à inteligência”, diz ela.

Uma vez validados, são feitas digitalizações tridimensionais do cérebro e os testes cognitivos e as radiografias cerebrais são repetidas todos os anos, ou mais. A análise dos dados ao longo dos anos tem produzido resultados fascinantes.

Neurónios maiores, sem a proteína tau

À medida que envelhecem, os cérebros da maioria das pessoas encolhem. No entanto, estudos mostram que, no caso dos SuperAgers, o córtex - a zona responsável pelo pensamento, tomada de decisões e memória - permanece muito mais espesso e encolhe mais lentamente do que os das pessoas na faixa dos 50 e 60 anos de idade.

O cérebro de um SuperAger, que normalmente é doado ao programa de investigação pelos participantes após a sua morte, também possui células maiores e mais saudáveis no córtex entorrinal. É “uma das primeiras áreas do cérebro a ser 'atingida' pela doença de Alzheimer”, diz Tamar Gefen, professor assistente de psiquiatria e ciências comportamentais na Northwestern.

O córtex entorrinal tem ligações diretas a outra central de memória fundamental, o hipocampo, que “é essencial para a memória e a aprendizagem”, detalha Gefen, o autor principal de um estudo realizado em novembro que comparou os cérebros de SuperAgers falecidos com os de pessoas mais velhas e mais jovens cognitivamente normais, e pessoas diagnosticadas com Alzheimer precoce.

Adicionalmente, o estudo constatou que os cérebros de sSuperAger apresentam três vezes menos emaranhados de proteínas tau, ou formações anormais de proteínas dentro das células nervosas, do que cérebros cognitivamente saudáveis. Os emaranhados de proteínas tau são um sinal distintivo da doença de Alzheimer e outras doenças relacionadas com a demência.

“Acreditamos que neurónios maiores no córtex entorrinal indicam que estes são mais 'estruturais' e podem ser mais capazes de resistir à formação de emaranhados neurofibrilares de proteína tau”, disse Gefen.

Gefen constatou também que o cérebro SuperAger tinha muitos mais neurónios von economo, um tipo raro de célula cerebral, do que alguma fez foi encontrado em humanos, primatas, elefantes, baleias, golfinhos e pássaros. Acredita-se que os neurónios von economo, semelhantes a um saca-rolhas, permitem uma comunicação rápida no cérebro. Uma outra teoria é que os neurónios proporcionam aos humanos e aos primatas uma vantagem intuitiva em situações sociais.

Os neurónios von economo foram encontrados no córtex cingulado anterior, que forma um colar na frente do cérebro ligando o lado cognitivo, do raciocínio com o lado emocional. O cingulado anterior é considerado um elemento importante para regular as emoções e prestar atenção, que é mais um fator essencial para uma boa memória.

Todas estas descobertas, em conjunto, parecem apontar para a existência de um elo genético para se ser um SuperAger, considera Gefen. Contudo, acrescenta: “A única forma de confirmar se os SuperAgers nascem com neurónios entorrinais maiores seria medir estes neurónios desde o nascimento até à morte. É óbvio que isso não é possível”.

Poderá o ambiente ser um fator influente?

Os SuperAgers partilham características semelhantes entre si, afirma Rogalski, que é também diretora associada do Mesulam Center for Cognitive Neurology and Alzheimer Disease em Feinberg. Estas pessoas mantêm-se fisicamente ativas. Eles tendem a ser positivos. Eles desafiam o seu cérebro todos os dias, ao ler ou aprender algo novo, e muitos continuam a trabalhar até aos 80 anos. Os SuperAgers são também pessoas muito sociais, sempre rodeados pela família e amigos, e podem muitas vezes ser encontrados a fazer voluntariado nas suas comunidades.

“Quando comparamos os SuperAgers com idosos normais, vemos que eles tendem a endossar relações mais positivas com outros”, disse Rogalski.

“Esta ligação social pode ser uma característica dos SuperAgers que os distingue daqueles que ainda estão bem, mas que são o que chamaríamos pessoas de idade média ou normal”, diz ela.

Carol Seigler aprendeu a ler com poucos anos de idade.

Em retrospetiva, Carol Siegler consegue identificar muitos traços de SuperAger em si mesma. Quando era criança, durante a Grande Depressão, ela aprendeu a soletrar e tocar piano sozinha. Aprendeu a ler hebraico ao colo do seu avô enquanto ele lia o seu jornal Yiddish semanal.

“Tenho boa memória. Sempre tive”, disse Siegler. “Sempre fui o tipo de criança a quem se podia perguntar: 'Qual é o número de telefone da Sofia?' e eu simplesmente sabia”.

Siegler concluiu o ensino secundário aos 16 anos e foi imediatamente para a universidade. Aos 23 anos, obteve a sua licença de piloto e mais tarde fundou uma empresa familiar na sua cave, que cresceu aos poucos até ter 100 empregados. Aos 82 anos, ganhou o Torneio Americano de Palavras Cruzadas no seu grupo etário, no qual disse ter participado “na brincadeira”.

Depois de ver um anúncio para o estudo de SuperAgers na televisão, Siegler achou que também seria divertido participar. Ser considerada uma SuperAger foi uma grande alegria, disse Siegler, mas ela tem consciência de que nasceu com sorte.

“Alguém com as mesmas capacidades ou talentos que um SuperAger e que viva num lugar onde existem poucas maneiras de as expressar, poderá nunca vir a saber que é um”, disse ela. “E isso é muito triste”.

 

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