Um finlandês que vive em Portugal há cinco anos decidiu partilhar nas redes sociais algumas das coisas que aprendeu sobre os hábitos dos portugueses. Focou-se, sobretudo, naquilo que os estrangeiros fazem e que pode não ser visto com bons olhos por quem cá vive. A publicação, feita num tom descontraído e com algum humor, acabou por gerar algum debate entre portugueses e estrangeiros.
Desde a ideia de que Portugal é um país “lento” à tradição do cesto do pão nos restaurantes, passando pela forma como alguns turistas ocupam as praias ou pela cultura das gorjetas, o imigrante reuniu seis comportamentos que, segundo a sua experiência, os estrangeiros deveriam evitar.
“Os portugueses são algumas das pessoas mais calorosas que conheci. Mas, depois de viver aqui durante cinco anos, também aprendi que há algumas coisas que os turistas fazem e que os locais não veem com bons olhos”, começa por escrever o imigrante. E deixa a lista:
Queixarem-se de que Portugal é lento
O almoço demora tempo. O jantar começa tarde. Os domingos podem ser tranquilos. Portugal não está atrasado. Você é que está adiantado. E com pressa.
Pensarem que Portugal é apenas Lisboa, Porto e Algarve
E depois darem a sua opinião sobre o país inteiro com base apenas nisso. Pode passar quatro dias aqui e, ainda assim, ter visto apenas uma pequena parte de Portugal. O Alentejo, o Norte, a Serra da Estrela, pequenas aldeias no meio do nada… praias naturais.
É aqui que começa a descobrir o Portugal pelo qual me apaixonei.
Agirem como se fossem donos da praia inteira
Música aos berros. Jogar à bola entre toda a gente. Ocupar metade da areia com as vossas coisas. Deixar lixo para trás. A praia é grande. E sagrada.
Não têm de obrigar toda a gente à vossa volta a mudar-se. Comportem-se como se estivessem a visitar a sala de estar de alguém.
Comerem o cesto do pão e depois contestarem a conta
Nunca foi grátis. Nunca irá ser grátis. Se não o querem, mandem-no de volta. Se o comerem, simplesmente paguem.
O pão é uma parte muito importante da refeição em Portugal. Usamo-lo para limpar todos os vestígios de molho do prato quando terminamos de comer.
Tratarem o país inteiro como se funcionasse de acordo com o vosso horário
As pausas para o almoço são reais. O jantar pode começar às 20h. O facto de o domingo ser tranquilo e de as coisas serem mais lentas não significa que o serviço seja mau.
Às vezes, Portugal está simplesmente a fazer de Portugal. Isso é identidade. Caso contrário, não pareceria Portugal.
Darem gorjetas como se estivessem na América
Portugal não tem a mesma cultura de dar uma percentagem da conta como gorjeta que existe nos Estados Unidos.
Bom serviço? Arredondem a conta. Claro que podem deixar algo extra, se quiserem, isso é importante.
Mas não façam um grande espetáculo por darem gorjeta enquanto, ao mesmo tempo, estão a dizer alto sobre como tudo é barato aqui.
As reações
A publicação acabou por gerar algum debate com comentários de portugueses e de estrangeiros, com opiniões bastante diferentes sobre a forma como o finlandês descreveu alguns hábitos e características do país.
Houve quem considerasse que o problema não está necessariamente nas críticas, mas na forma como são apresentadas. Um dos comentários defende precisamente essa ideia:
“Acho que nós, portugueses, não nos importamos assim tanto que critiquem alguma destas coisas. Na verdade, nós próprios nos queixamos de muitas delas quando nos deparamos com essas situações. O que não gostamos tanto é que as juntem todas e façam disso um problema de Portugal, como se o associassem ao facto de sermos portugueses. Porque, nesse caso, não há redenção possível: se há um problema, é por sermos portugueses. Por isso, critiquem quando houver razão para criticar, mas responsabilizem as pessoas responsáveis, não o país inteiro.”
Já outro seguidor discordou frontalmente de um dos pontos levantados pelo finlandês, nomeadamente da questão do cesto do pão nos restaurantes. No comentário, partilha ainda uma experiência que teve em Viena:
“Bem, lamento, mas o cesto do pão é completamente ridículo. Concordo com tudo o resto. Vivi em várias partes do mundo e a primeira vez que me deparei com isto foi em Viena, no primeiro distrito. Costumavam trazer sempre qualquer coisa para irmos comendo enquanto esperávamos pela comida. Normalmente, pão e manteiga. Depois, de repente, introduziram isto. Para piorar, agora, em muitos restaurantes, também temos de pagar uma taxa de serviço/couvert. Muitas vezes são 7 euros. Anunciam um menu de almoço por 20 euros e, no fim, acabamos a pagar 30. E ainda esperam uma gorjeta", escreveu.
Nem todos os comentários foram, contudo, centrados nos pontos específicos da lista. Houve também quem colocasse em causa a própria ideia de que os portugueses são pessoas particularmente acolhedoras, como mostra esta reação:
O comentário que mais gerou revolta entre os portugueses foi o de um utilizador que escreveu: “Os portugueses são as pessoas mais simpáticas que já conheceste? Deves estar a gozar. Ou foste pago por alguém para dizer isso… quem sabe. Ridículo.”
Por outro lado, houve também quem recebesse a perspetiva do finlandês de forma bastante positiva. Um dos portugueses que comentou a publicação admitiu até que as palavras do estrangeiro o fizeram olhar para o próprio país de outra maneira: “Gosto da forma como vês o meu país. Faz-me pensar duas vezes, por vezes, e perceber que tens razão e que nem sequer nos damos conta de como este país é fantástico.”