Há dias em que não estamos propriamente com fome. Estamos cansados. Stressados. Frustrados. Ansiosos. Ou simplesmente tivemos um dia péssimo e sentimos que “merecemos” aquele chocolate, aquelas bolachas ou um pacote de batatas fritas.
O problema não está em comer um doce. Está no motivo pelo qual sentimos que precisamos dele.
A chamada fome emocional acontece quando a comida começa a ser usada como resposta a emoções ou situações difíceis, em vez de servir apenas para satisfazer uma necessidade física. E, numa altura em que somos constantemente incentivados a controlar o que comemos, o nosso peso e o nosso corpo, perceber esta diferença pode ser mais importante do que contar calorias.
O tema foi recentemente abordado pela CNN Portugal, que ouviu os nutricionistas Conceição Calhau, autora de Engolir Sapos Engorda - O peso das emoções na saúde e na balança, e João Rodrigues, autor de Fome Emocional - Porque não consigo parar de comer?.
Quando a comida serve para compensar aquilo que correu mal
Segundo João Rodrigues, citado pela CNN Portugal, o ritmo de vida, o stress, as expectativas e a pressão para corresponder a uma ideia de “vida perfeita” podem contribuir para este comportamento. As redes sociais, com a exposição permanente a corpos e estilos de vida aparentemente perfeitos, podem acrescentar outra camada de frustração.
A lógica é relativamente simples: sentimo-nos mal e procuramos uma recompensa rápida. E a comida pode proporcionar essa sensação de prazer. O problema surge quando passa a ser utilizada repetidamente para compensar aquilo que falta noutros lugares da vida.
Conceição Calhau, professora catedrática da NOVA Medical School, chama a atenção precisamente para o peso das emoções e do stress na relação com a alimentação. O seu mais recente livro, Engolir Sapos Engorda, aborda a forma como o stress e as emoções podem interferir com o metabolismo e a saúde.
Há um sinal que pode ajudar a perceber a diferença
Na fome física, em princípio, estamos disponíveis para comer. Na fome emocional, muitas vezes queremos uma coisa muito específica: chocolate, bolachas, batatas fritas, bolo, um gelado.
É precisamente esta especificidade que Conceição Calhau destaca no artigo da CNN Portugal: a pessoa não procura simplesmente comida para deixar de sentir fome, procura determinado alimento, muitas vezes associado a prazer ou recompensa.
Outro sinal importante é o padrão. Se acontece repetidamente à mesma hora, depois de determinadas situações ou sempre que surgem determinadas emoções, pode valer a pena parar e perguntar: estou com fome ou estou a tentar sentir-me melhor?
João Rodrigues, através do projeto Mundo da Nutrição, defende precisamente a importância de identificar estes padrões e perceber quais são os acontecimentos que funcionam como gatilho. O nutricionista mantém o projeto desde 2017 e lançou em junho de 2026 o livro Fome Emocional - Porque não consigo parar de comer?, dedicado a esta relação entre emoções, alimentação e comportamento alimentar.
A solução não passa por proibir tudo
Esta é talvez uma das ideias mais importantes a retirar do tema: comer emocionalmente não se resolve necessariamente com mais restrição.
No artigo da CNN Portugal, Conceição Calhau defende que proibir simplesmente o alimento associado ao comportamento não trata a causa do problema. Em determinados casos, pode ser necessário acompanhamento psicológico ou psiquiátrico em conjunto com o acompanhamento nutricional, precisamente para perceber o que está por detrás daquele comportamento.
A nutricionista defende ainda que proibir o alimento em causa não é a solução. O processo tem de ser gradual. “Não posso achar que trato a adição com açúcar dizendo à pessoa que ela não vai comer açúcar. É como dizer a um toxicodependente - e o açúcar também é uma droga, embora muitas vezes não seja entendido como tal - que não vai usar cocaína”, diz.
É uma mudança importante de perspetiva: em vez de perguntar apenas “como é que deixo de comer isto?”, pode ser necessário perguntar “porque é que sinto que preciso disto neste momento?”
Nem tudo é falta de força de vontade
A fome emocional não é exclusiva de pessoas com excesso de peso. Qualquer pessoa, independentemente da idade, género ou composição corporal, pode desenvolver uma relação problemática com a comida, segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal. E talvez seja aqui que a conversa se cruza com a pressão que sentimos atualmente para comer “bem”, treinar mais e ter determinado corpo.
Passamos grande parte do dia a ouvir o que devemos comer, o que não devemos comer, quanto devemos pesar e quanto exercício devemos fazer. Para algumas pessoas, essa vigilância permanente pode transformar a alimentação numa fonte adicional de ansiedade, culpa e frustração.
A comida não tem de ser uma recompensa, um castigo ou um teste de força de vontade. E quando sentimos repetidamente que não conseguimos controlar a relação com determinados alimentos, procurar ajuda especializada pode ser muito mais útil do que impor mais uma regra à nossa alimentação.