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Do caldo verde ao aos pastéis de nata: luso-francês leva Portugal ao Vietname

“A ideia é simples: partilhar o que gosto com os outros”

Agência Lusa
21 jan, 16:04
pastel de nata
pastel de nata

No coração de Ho Chi Minh, megametrópole do sul do Vietname, uma montra composta por pastéis de nata alicia clientes a provar gastronomia portuguesa, num projeto concebido por um luso-francês e a mulher, vietnamita.

“A ideia é simples: partilhar o que gosto com os outros”, contou à agência Lusa Rudy Matias, a propósito do restaurante Casinha, inaugurado há um ano e onde se podem saborear pratos como caldo verde, bitoque, bacalhau à Brás, amêijoas à Bulhão Pato ou polvo à lagareiro.

Localizado no Distrito 1 de Ho Chi Minh, metrópole com quase 10 milhões de habitantes, às margens do delta do Mekong, um dos rios mais extensos do planeta, a Casinha foi distinguida este ano como segundo colocado na categoria de Melhor Restaurante Casual pela revista gastronómica Epicure Vietnam, graças à “autenticidade da sua cozinha e ao ambiente familiar”.

"Foi uma surpresa. Nunca pensámos nisso como objetivo”, explicou Rudy Matias, cuja mulher e parceira no negócio, Hanh Mai, é natural de Ho Chi Minh. “Mas tivemos esta oportunidade de criar uma história, de valorizar aqui Portugal, porque Portugal é desconhecido no Vietname. À parte de Cristiano Ronaldo, o povo vietnamita conhece pouca coisa”, acrescentou.

Com uma estética que combina azulejos tradicionais, paredes caiadas e mesas de madeira, o restaurante recria a atmosfera de um típico café português. Nas paredes, destacam-se fotografias e retratos de cidades e figuras históricas de Portugal.

Nascido em Créteil, nos arredores de Paris, filho de emigrantes naturais de Ourém, no distrito de Santarém, Rudy Matias mantém com Portugal uma “ligação sentimental”, construída ao longo dos verões da infância e adolescência passados no país, e reforçada mais tarde por um ano vivido em Lisboa, durante o qual percorreu de norte a sul o país e explorou a gastronomia nacional.

“Foram essas memórias que quis reproduzir aqui”, contou.

Todos os cozinheiros da Casinha são locais, treinados por Rudy Matias. “Não foi assim tão difícil, mas foi preciso paciência e muito tempo de diálogo”, contou.

 “Os vietnamitas são bons cozinheiros”, acrescentou o luso-francês. “Eles sabem preparar os mariscos, assar as carnes, fazem muitas coisas, e até carne de porco, coisas bastante parecidas às vezes com o que temos em Portugal. Temos alguns ingredientes parecidos também: o alho, as especiarias”, descreveu.

Apesar das dificuldades em importar vinhos portugueses, a Casinha trabalha apenas com rótulos nacionais. "Temos mais de 20 vinhos. Tentamos motivar os fornecedores a trazerem vinhos portugueses. Faz parte da nossa missão", realçou.

Os pastéis de nata são preparados três vezes ao dia, segundo uma receita familiar, e servidos sempre frescos. Os que ficam por vender são doados a orfanatos locais. Em menos de um ano foram servidos mais de 40 mil, de acordo com Rudy Matias.

O próximo passo é tornar a Casinha num ponto de difusão da cultura portuguesa no país do sudeste asiático, através de concertos ou exposições por artistas nacionais.  

“Essa é a ambição: fazer esquecer os 10 mil quilómetros que separam Portugal e Vietname”, apontou Rudy.

Responsável por uma empresa de comunicação, o empreendedor luso-francês afirma estar “entusiasmado” com as perspetivas de crescimento da economia vietnamita, que registou um aumento de 8% em 2025. Este ano, o Produto Interno Bruto do país deverá ultrapassar o da Tailândia, tornando o Vietname na terceira maior economia do sudeste asiático.

“Das primeiras coisas que admirei ao chegar ao Vietname foi ver sempre as pessoas em movimento: não estão sentadas à espera que lhes caía alguma coisa do céu”, contou.

No horizonte da cidade de Ho Chi Minh, os esqueletos de aço de arranha-céus em construção e torres de escritório envidraçadas anunciam o nascimento de um possível novo "Tigre Asiático" - termo utilizado para Singapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan, que registaram um acelerado crescimento económico na segunda metade do século passado.

Ao fim da tarde, milhares de motoretas entopem as ruas da cidade outrora designada Saigão, a capital do Vietname do Sul, aliado dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietname (1955 - 1975). Tudo se serve ou se faz na rua – café, refeições ou barbearia – em cadeiras e mesas descartáveis, dispostas pelos becos, vielas e avenidas.

Com cerca de 110 milhões de habitantes e 70% da população em idade ativa, o Vietname continua a atrair setores de mão-de-obra intensiva, como têxtil, calçado ou mobiliário, mas os empresários consideram que deverá migrar rapidamente para setores de maior valor agregado, seguindo o percurso de outros países da região.

“É um país muito dinâmico”, disse Rudy Matias. “Quando eles precisam de fazer alguma coisa, fazem. E isso é algo muito inspirador”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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