Um estudo da Universidade de Coimbra (UC) identificou, com recurso a um modelo bioinformático, alterações na expressão dos chamados “genes-relógio” associadas à insónia crónica, podendo contribuir para um diagnóstico mais preciso da doença, anunciou hoje aquela instituição.
O que são os “genes-relógio” e como podem ajudar a diagnosticar a insónia?
“Perceber o perfil dos ‘genes-relógio’ nas pessoas com insónia, e que esse perfil pode ser um biomarcador para diagnosticar a insónia de forma mais objetiva, foi um dos grandes passos dados com este estudo”, explicou a investigadora coordenadora do artigo e do subgrupo de investigação Ritmos Biológicos e Sono no Envelhecimento e Doenças Associadas do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC-UC), Ana Rita Álvaro.
Quem realizou o estudo sobre a insónia crónica?
A equipa de investigação foi liderada pelo CNC-UC e pelo Centro de Inovação em Biotecnologia e Biomedicina (CiBB), em colaboração com a Universidade de Aveiro.
Porque é que os “genes-relógio” podem ser importantes no diagnóstico da insónia?
Segundo a UC, "é a primeira vez que a relação entre estes genes e a insónia crónica é estudada" e pode contribuir para um diagnóstico mais preciso da doença e para compreender de que forma os "genes-relógio" podem funcionar como novos biomarcadores da doença.
"Atualmente, por não existirem marcadores biológicos, a insónia tem um diagnóstico ambivalente e é difícil de tratar", notou.
O que fazem os “genes-relógio” no organismo?
A instituição explicou que as alterações identificadas verificaram-se em pelo menos três “genes-relógio”, que regulam o ritmo circadiano ou relógio biológico – sistema interno do corpo que regula sono, temperatura e hormonas ao longo do dia, de acordo com a luz solar.
Que alterações biológicas estão associadas à insónia crónica?
O estudo também associa a alteração na expressão destes genes à desregulação dos níveis de cortisol, de melatonina e da temperatura corporal, marcadores biológicos naturalmente afetados em pessoas com perturbações do sono.
Que pessoas com insónia apresentaram alterações mais significativas?
Os investigadores encontraram “alterações significativas” na atividade de “genes-relógio” em pessoas com sono de curta duração, o subtipo mais grave (quando se dorme menos de seis horas), sendo que estas pessoas apresentaram ainda temperatura corporal e níveis de cortisol mais elevados à noite, sinais de desregulação do relógio biológico.
Quanto mais grave é a insónia, maior é a alteração do ritmo circadiano?
“Confirmámos que quanto mais grave é a insónia nestes pacientes, mais alterados são os sinais de ritmo circadiano medidos por actigrafia, uma medição de atividade feita por um dispositivo tipo pulseira que regista atividade e temperatura”, destacou a investigadora.
A inteligência artificial pode ajudar a identificar a insónia?
A UC acrescentou que, de forma pioneira, a utilização de inteligência artificial, através de ‘machine learning’, permitiu distinguir pessoas com insónia de pessoas saudáveis, “com 92% de precisão”, e identificar os subtipos de insónia em cada um dos participantes no estudo (sono de curta duração e sono de duração normal).
O que há de novo neste estudo sobre a insónia crónica?
“Este estudo combina abordagens já exploradas separadamente noutras doenças do sono, como a análise da expressão de ‘genes-relógio’ em doentes com apneia do sono, mas aplica-as agora, de forma inovadora, à insónia crónica, e em particular à distinção entre os seus subtipos”, afirmou Ana Rita Álvaro.
Que instituições participaram na investigação?
O Centro de Medicina do Sono da Unidade Local de Saúde de Coimbra e a Universidade da Pensilvânia (Estado Unidos) participaram também neste estudo.
Quantas pessoas sofrem de insónia crónica em Portugal?
Em Portugal, estima-se que cerca de 10% da população possa sofrer de insónia crónica.
Quando é considerada crónica a insónia?
A insónia é considerada crónica quando existe dificuldade em manter o sono por mais de três noites por semana, em três ou mais meses seguidos.