Um rei "fora de controlo". O regresso de Juan Carlos à Zarzuela

Ida do rei emérito a Espanha continua a causar polémica. Há quem diga que se comporta como um “adolescente caprichoso”, que se sente injustiçado e não reconhece que atuou mal. Prova disso foram as declarações feitas ao jornal La Sexta, ainda na Galiza. Questionado sobre se iria dar explicações ao filho no encontro desta segunda-feira, atirou uma resposta irónica: “Explicações de quê?”

António Guimarães
23 mai, 11:39
23 mai, 11:39

Juan Carlos regressou na semana passada a Espanha para participar numa regata na Galiza, durante três dias foi recebido com carinho por todos os espanhóis, mas a tensão aumentou esta segunda-feira, com a chegada do rei emérito a Madrid, onde se encontrou com o filho no palácio de La Zarzuela, residência da monarquia espanhola.

O objetivo, dizem os meios de comunicação espanhóis, é normalizar as visitas a Espanha para alguém que esteve fora do país quase dois anos, depois de as várias investigações judiciais relacionadas com alegados crimes fiscais terem tornado insustentável a presença de Juan Carlos no seu país. Daqui a três semanas Juan Carlos regressa, e a esperança é que essa normalização deixe de causar tanto alarido, nomeadamente dos vários partidos, incluindo o PSOE, que até está no governo, ou até mesmo de alguns membros da Casa Real.

“Vim aqui para normalizar tudo”, afirmou várias vezes o monarca em Sanxenxo, na Galiza.

A versão oficial da Casa Real até é de que o pai de Felipe VI pode regressar a Espanha sempre que quiser, mas o El Mundo refere que, nos bastidores, a vinda de Juan Carlos não foi assim tão consensual, e só foi aceite depois de várias negociações difíceis. O governo descartou toda a responsabilidade, deixando-a nas mãos do rei, que acabou por ter um papel decisivo: foi uma chamada de Felipe VI para o pai que acelerou a visita, que se consumou apenas quatro dias após a conversa entre ambos.

Fontes ligadas ao processo revelaram ao El País que as negociações foram um “quebra-cabeças” para Felipe VI, que teme que a conduta do seu pai possa manchar a imagem da Casa Real.

Mas, logo à chegada a Espanha, houve um pormenor que não passou despercebido. Juan Carlos seguiu diretamente para Vigo, onde decorreu a regata, sem antes passar por Madrid, onde está o filho e as netas. É que o rei emérito está proibido de pernoitar em La Zarzuela, casa que foi sua durante meio século, e na qual é agora recebido como um convidado. Essa terá mesmo sido uma condição imposta pelo filho para que a ida a Madrid se pudesse realizar.

Do encontro, pouco se sabe além dos “muitos abraços” que Juan Carlos espera, segundo o que disse à imprensa. É um assunto que a Casa Real entende ser de família, e é conhecido apenas que, além do filho, estará também com Sofia, com quem ainda é casado, e com outros membros da família, entre os quais a Infanta Margarita, sua irmã. A mulher do rei emérito até estava em Miami quando este chegou, tendo sido essa a versão oficial da Casa Real para justificar a ida à Galiza antes de Madrid.

É por isso que não vão ser publicadas quaisquer fotografias oficiais do encontro, até porque Juan Carlos se excluiu da vida pública em 2019. De resto, a visita não faz sequer parte da agenda oficial do rei.

O encontro deverá demorar cerca de seis horas, no fim das quais Juan Carlos deverá regressar a Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos que o tem acolhido nos últimos meses.

Um rei "fora de controlo"

O grande medo de Felipe VI e da sua prole é que Juan Carlos danifique a imagem da monarquia espanhola. O El País refere que há quem ache que o rei emérito não tem consciência dos danos que pode causar à imagem da família, e, sobretudo, da instituição.

Fontes do governo dizem mesmo que, apesar dos 84 anos, Juan Carlos se comporta como um “adolescente caprichoso”, que se sente injustiçado e não reconhece que atuou mal.

Prova disso foram as declarações feitas ao jornal La Sexta, ainda na Galiza. Questionado sobre se iria dar explicações ao filho no encontro desta segunda-feira, Juan Carlos atirou uma resposta irónica: “Explicações de quê?”

Já na Casa Real o que alguns pensam é que Juan Carlos está “fora de controlo”, o que motiva Felipe VI a manter alguma distância nas relações, sobretudo as oficiais.

Certo é que Juan Carlos regressará a Espanha de 10 a 19 de junho, novamente a Sanxenxo, onde voltará a participar na Taça do Mundo de uma categoria de veleiros, que até venceu em 2017 e 2019.

RELACIONADOS
Mais Lidas