O julgamento entra na reta final com especialistas em saúde mental a apresentarem versões opostas sobre o estado psicológico da mulher que matou os três filhos. A defesa fala em psicose pós-parto. A acusação diz que não há sinais de psicose nem de bipolaridade.
O que aconteceu naquela casa em Duxbury, Massachusetts, na noite de 24 de janeiro de 2023, não está verdadeiramente em discussão neste julgamento. Lindsay Clancy matou os três filhos, Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan, de apenas oito meses, antes de tentar suicidar-se.
A pergunta que agora pode decidir o seu destino é outra: Lindsay Clancy sabia o que estava a fazer e conseguia controlar as suas ações? É nesta questão que o julgamento entra nos seus últimos dias.
Duas versões da mesma mulher
Segundo avança o NBC Boston, a defesa terminou na sexta-feira depois de chamar ao banco o psiquiatra forense Phillip Resnick. O especialista, conhecido por ter participado noutros casos mediáticos, incluindo o de Andrea Yates, defendeu que Clancy sofria de perturbação bipolar e estava em psicose pós-parto quando matou os filhos.
Segundo Resnick, Clancy estaria a ouvir aquilo que descreveu como uma voz de comando e acreditava que estava a fazer algo que protegeria as crianças. A sua interpretação é que a mulher estava psicótica e não conseguia agir de acordo com a lei.
A acusação respondeu imediatamente. O primeiro especialista chamado em contraditório, o psiquiatra Avram Mack, apresentou um diagnóstico substancialmente diferente: um episódio depressivo grave e ansiedade, mas sem evidência de mania ou psicose.
Mack rejeitou, assim, uma das peças fundamentais da tese da defesa: se nunca houve um episódio de mania, argumenta, não há base suficiente para o diagnóstico de bipolaridade.
Também contestou a ideia de que os medicamentos que Clancy tomava tenham provocado um estado psicótico. A mulher poderá ter sentido efeitos secundários, disse, mas isso não significa necessariamente que estivesse psicótica.
É esta batalha entre especialistas que deverá dominar os últimos dias de testemunhos.
O detalhe que pode pesar perante o júri
Durante o seu testemunho, Mack relatou ainda uma frase que Clancy lhe terá contado ter dito aos filhos: “Go to God”.
O testemunho é particularmente relevante porque coloca em cima da mesa não apenas o que Clancy fez, mas a forma como descreveu posteriormente aquilo que aconteceu. A defesa vê nessa narrativa sinais de uma realidade profundamente distorcida. A acusação procura demonstrar que Clancy continuava a compreender a natureza das suas ações.
Os procuradores sustentam, de resto, que houve planeamento e que Clancy sabia o que estava a fazer. A defesa tenta convencer o júri do contrário: que, naquele momento, uma doença mental grave lhe retirou a capacidade de compreender a ilicitude dos seus atos ou de agir de acordo com a lei.
Uma doença rara que se tornou central no julgamento
A psicose pós-parto é uma doença rara, mas é uma emergência psiquiátrica grave. Pode envolver delírios, alucinações, alterações extremas do humor e perda de contacto com a realidade. Estimativas citadas por especialistas apontam para cerca de um a dois casos por cada mil partos.
É precisamente por ser uma condição tão severa, e ao mesmo tempo tão pouco frequente, que o caso Clancy ultrapassou rapidamente as fronteiras de um julgamento criminal.
Antes da tragédia, Clancy tinha procurado ajuda para problemas de saúde mental, tomado vários medicamentos e passado por internamento psiquiátrico. O julgamento tem colocado sob escrutínio esse percurso e a forma como os seus sintomas foram avaliados e tratados.
Mas há uma distinção fundamental: ter uma doença mental não significa automaticamente ser inimputável. É essa fronteira que o júri terá de avaliar.
Com a defesa encerrada, a acusação está a chamar testemunhas de contraditório para responder às conclusões dos especialistas apresentados por Clancy. O julgamento deverá prosseguir esta segunda-feira com o regresso de Avram Mack ao banco das testemunhas e com pelo menos mais dois especialistas esperados pela acusação. Os argumentos finais poderão começar já nos próximos dias.