Lipedema
Lipedema

Perder peso no tronco e não nas pernas pode ser sinal desta doença. Menopausa agrava sintomas

IOL
12 jun., 13:30

Nem tudo o que acontece às pernas na menopausa é normal. A especialista Marta Padilha esclarece todas as dúvidas

Muitas mulheres chegam à menopausa convencidas de que o aumento do volume das pernas, a sensação de peso ou a dificuldade em perder peso fazem simplesmente parte desta nova fase da vida. Mas nem sempre é assim. Em alguns casos, estes sintomas podem estar relacionados com o lipedema, uma doença crónica que afeta quase exclusivamente mulheres e que continua a ser pouco reconhecida.

No âmbito do Mês de Consciencialização sobre o Lipedema, falámos com Marta Padilha, médica com uma especialização em Medicina Antienvelhecimento e Longevidade e outra em Gestão do Peso.

O que é exatamente o lipedema e porque continua a ser uma doença tão pouco reconhecida, apesar de afetar tantas mulheres?

O lipedema é uma doença crónica do tecido adiposo que afeta quase exclusivamente mulheres. Caracteriza-se por uma acumulação desproporcional de gordura, sobretudo nas pernas e, em alguns casos, nos braços, frequentemente acompanhada por dor, sensação de peso, facilidade em fazer nódoas negras e impacto significativo na qualidade de vida.

Apesar de afetar um número relevante de mulheres, continua a ser frequentemente confundido com obesidade, retenção de líquidos ou alterações circulatórias. Muitas mulheres cresceram a ouvir que tinham apenas "pernas grossas de família" ou que o problema se devia exclusivamente ao excesso de peso. Nos últimos anos o conhecimento sobre o lipedema aumentou significativamente, mas ainda existe um longo caminho a percorrer no reconhecimento precoce da doença e no acesso a acompanhamento adequado.

A menopausa pode agravar os sintomas do lipedema? Que alterações são mais frequentemente relatadas pelas doentes nesta fase da vida?

Sim. A menopausa é uma das fases da vida em que muitas mulheres referem agravamento dos sintomas do lipedema. Nesta etapa ocorre uma profunda reorganização hormonal e metabólica, associada à diminuição dos níveis de estrogénios.

Muitas mulheres descrevem aumento do volume das pernas, maior sensação de peso, agravamento da dor, mais fadiga e uma crescente dificuldade em controlar o peso corporal. Embora a menopausa não seja a causa do lipedema, pode funcionar como um período de aceleração da sua progressão em mulheres predispostas.

Muitas mulheres associam o aumento de peso na menopausa a mudanças hormonais normais. Como podem distinguir esses sinais de um possível agravamento do lipedema?

Na menopausa é comum existir um aumento da gordura abdominal e uma maior dificuldade em controlar o peso. No entanto, no lipedema o padrão é diferente. Muitas mulheres referem que as pernas aumentam de volume de forma desproporcional relativamente ao resto do corpo. Outras descrevem uma sensação crescente de peso, tensão ou desconforto nas pernas, mesmo quando o peso global não se altera significativamente.

Um dos aspetos mais característicos é a sensação de perder peso no tronco, rosto ou peito, mantendo praticamente o volume nas pernas. Mais do que olhar apenas para a balança, é importante observar a forma como o corpo está a mudar. Quando existe uma alteração desproporcional da silhueta ou agravamento progressivo dos sintomas das pernas, vale a pena investigar se existe algo mais além das alterações normais da menopausa.

Qual é o papel das hormonas femininas no desenvolvimento e evolução do lipedema? Porque é que fases como a puberdade, a gravidez ou a menopausa parecem ter um impacto tão significativo?

Embora ainda existam muitas perguntas por responder, sabemos que o lipedema apresenta uma forte ligação aos períodos de mudança hormonal feminina. A doença surge frequentemente ou agrava-se durante a puberdade, a gravidez, o pós-parto ou a menopausa. Este padrão sugere que as hormonas sexuais femininas desempenham um papel importante na sua fisiopatologia.

Hoje acreditamos que não são apenas os níveis hormonais que importam, mas também a forma como os tecidos respondem às hormonas. O tecido adiposo, a inflamação, o metabolismo hormonal local e outros fatores biológicos podem influenciar essa resposta.

Por isso, duas mulheres com níveis hormonais semelhantes podem apresentar manifestações clínicas muito diferentes. Talvez uma das mensagens mais importantes seja esta: não tratamos apenas hormonas. Tratamos também o ambiente biológico onde essas hormonas atuam.

A terapia hormonal de substituição pode ajudar algumas mulheres com lipedema? Em que casos pode ser considerada e que fatores devem ser avaliados antes dessa decisão?

A terapêutica hormonal pode ser uma ferramenta muito útil em mulheres com sintomas significativos da menopausa, incluindo algumas mulheres com lipedema. No entanto, a decisão deve ser sempre individualizada. Devem ser avaliados fatores como a idade, o tempo de menopausa, os sintomas apresentados, os antecedentes pessoais e familiares, o risco cardiovascular, o perfil metabólico e a própria evolução do lipedema.

Atualmente sabemos que não existe uma abordagem única para todas as mulheres. A mesma terapêutica pode produzir respostas diferentes em pessoas diferentes. O objetivo não é apenas corrigir uma deficiência hormonal, mas encontrar a estratégia mais adequada para cada mulher, no seu contexto clínico específico.

Que sinais de alerta devem levar uma mulher na perimenopausa ou menopausa a procurar avaliação médica para despistar ou acompanhar o lipedema?

A menopausa é uma fase de muitas mudanças físicas e nem sempre é fácil perceber o que faz parte do processo natural de envelhecimento e o que poderá refletir a progressão de uma doença já existente. Sempre que uma mulher notar alterações importantes na forma das pernas, aumento desproporcional do volume dos membros inferiores, agravamento da sensação de peso, desconforto ou perda de qualidade de vida, pode ser útil procurar uma avaliação médica diferenciada.

O objetivo não é criar alarme, mas garantir que alterações potencialmente relevantes não sejam atribuídas automaticamente à menopausa ou ao aumento de peso associado à idade e permitir um correto diagnóstico.

Que erros mais comuns vê nas mulheres que tentam combater o aumento do volume das pernas apenas com dieta e exercício físico?

O erro mais frequente é acreditar que o problema resulta apenas de excesso de peso ou falta de exercício. A alimentação saudável e a atividade física são fundamentais para a saúde global e fazem parte da abordagem terapêutica do lipedema.

No entanto, muitas mulheres ficam frustradas porque, apesar de perderem peso, as pernas mantêm praticamente o volume. Outro erro comum é recorrer a dietas muito restritivas ou a programas de exercício excessivamente intensos na tentativa de reduzir rapidamente o volume das pernas.

O lipedema é uma doença complexa e multifatorial. Por isso, a abordagem deve ir além da simples perda de peso e considerar fatores como a inflamação, o sistema linfático, o ambiente hormonal, o intestino, a composição corporal e o metabolismo. O objetivo não deve ser apenas emagrecer. Deve ser compreender o que está a contribuir para os sintomas e construir uma estratégia que permita melhorar a saúde, a funcionalidade e a qualidade de vida a longo prazo.

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