A Livrearia | Ponte de Lima
A Livrearia | Ponte de Lima

A livraria portuguesa onde ninguém vigia os livros e todos confiam nos leitores

Pilar Castelo Branco
22 jul., 17:03
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Há um lugar em Portugal onde ninguém verifica se o leitor pagou o que levou

Não tive oportunidade de falar com ninguém responsável pelo espaço nesta visita, mas não resisti a escrever sobre um lugar que continua a intrigar-me. Fui a Ponte de Lima de propósito depois de ouvir falar deste projeto: uma livraria sem funcionários, sem caixa registadora e sem ninguém a tomar conta do que lá se passa. Chama-se Livrearia, é uma criação de Manuel Pimenta e fica no Largo da Matriz, no coração histórico da vila.

No exterior, encontro uma fachada discreta com um letreiro em maiúsculas onde se lê LIVREARIA, sobre duas portas de granito. Também à entrada está um cartaz amarelo intitulado "Atenção" que avisa, em três línguas, que quem ali entra está prestes a "voar para dentro dos livros". É um convite escrito com um humor muito próprio, quase teatral, que já prepara quem visita para o resto da experiência.

LIVREARIA

Lá dentro, um corredor estreito revestido de madeira do chão ao teto convida a caminhar devagar. De um lado, ao longo de uma parede branca, dezenas de cartazes coloridos anunciam leituras, concertos e conversas que já ali aconteceram, com nomes como Carlos Paredes, Adolfo Luxúria Canibal ou uma tarde dedicada à poesia de Abril. Do outro, as estantes de madeira acompanham todo o percurso e há até bancos estofados onde é possível sentar-se e ler com calma, para quem hesitar antes de decidir levar um livro. Ao fundo, três pequenos retratos de mulheres em trajes tradicionais decoram a parede, um toque quase de galeria a fechar o corredor.

Os livros estão organizados por temas e por línguas, com secções de literatura infantil ao lado de romance em espanhol e clássicos portugueses lado a lado com edições antigas de bolso. Não há etiquetas de preço, nem sequer uma indicação clara de quem vende o quê. Segundo o cartaz da entrada, quem quiser levar um livro deve dirigir-se a um dos negócios vizinhos do largo (a padaria, a farmácia ou a loja de roupa) e fazer o pagamento ali, consoante o valor sugerido: 10 euros para quem se sentir excêntrico, 5 euros para o "cidadão comum". O próprio cartaz brinca que só quem tiver "o triste prazer de roubar sem necessidade" levaria um livro sem pagar, deixando claro que o gesto de honestidade é esperado por todos.

O gesto de confiança, porém, não se esgota num único momento. Junto às estantes, um pequeno letreiro num suporte de tablet explica que, aos fins de semana à tarde, quando o comércio vizinho está fechado, o pagamento pode ser feito por MB Way. É um pormenor que diz muito sobre este projeto: não assenta apenas na presença de alguém do outro lado do balcão, mas na certeza de que há sempre uma forma de pagar, e de que o livro continua a valer o que cada leitor decidir.

Numa pesquisa que fiz depois da visita, descobri que o projeto chegou a ser finalista de um prémio internacional de arquitetura, distinção noticiada pelo ominho.pt. Não é por acaso: há ali um cuidado de desenho que se sente assim que se entra, muito para além da função simples de expor livros em segunda mão.

Mais do que uma livraria, a Livrearia é um exercício de confiança coletiva, um pequeno manifesto sobre o valor da palavra escrita e a prova de que, pelo menos num largo do Minho, a honestidade continua a ser moeda de troca.

livrearia

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