É dia das mentiras, sim: mas quando as mentiras se tornam uma doença, o que se faz?

Maria João Caetano
1 abr, 09:00
1 abr, 09:00
Mentira (GettyImages)
Mentira (GettyImages)

"A mitomania não tem sintomas, tem sinais"

Todas as pessoas mentem. "Os animais inteligentes mentem, em algum momento, para tirar proveito de uma situação, para evitar uma situação complicada. Muitas vezes os elogios são mentiras. Nós somos programados para acreditar e, portanto, a mentira é uma estratégia para contornar a realidade e torná-la mais favorável", afirma o psiquiatra João Cardoso. 

Mas para algumas pessoas a mentira pode tornar-se uma doença. "Quando a mentira é compulsiva, torna-se disfuncional e afeta a vida da pessoa", diz a psicóloga Catarina Graça. A mitomania é uma patologia identificada.

"Os mitómanos não conseguem evitar dizer mentiras. Muitas vezes são mentiras inofensivas, não tiram nenhuma vantagem delas. Inventam histórias, criam uma realidade paralela. Felizmente esses casos são raros", explica João Cardoso, que recorda os casos de pessoas que sofrem do síndrome de Munchausen, ou seja, inventam sintomas para ter acesso a cuidados de saúde -  barão de Munchausen foi um militar alemão conhecido pelas histórias fabulosas que contava e os relatos das suas aventuras serviram de base para As Aventuras do Barão de Münchhausen, compiladas por Rudolph Erich Raspe e publicadas em Londres em 1785.

"As histórias dos impostores, pessoas que criaram uma biografia fictícia ou que baseiam a sua vida em mentiras já deram origem a muitos livros, filmes e séries de televisão", lembra João Cardoso. Basta lembrar "O Talentoso Mr. Ripley", criado por Patricia Highsmith e interpretado no cinema por Matt Damon no filme realizado por Anthony Minguella (1999). Ou até o próprio Pinóquio - o boneco de madeira criado por Carlo Collodi em 1883 e a quem crescia o nariz sempre que dizia uma mentira (e ele dizia muitas). Não por acaso, a mitomania também é conhecida como síndrome de Pinóquio.

Porque é que as pessoas mentem?

É difícil saber exatamente. "As pessoas começam por mentir porque têm medos e inseguranças, não conseguem lidar com a realidade. Tudo começa pelo medo do julgamento dos outros, o medo de falhar, o medo da crítica", aponta Catarina Graça. Depois, "e se essas mentiras resultam, começam a ver as vantagens de mentir e isso torna-se quase um vício". A mentira torna-se assim compulsiva - é como se as pessoas não conseguissem resistir a continuar a mentir ou a dizer só mais uma mentira, como que criando uma realidade paralela em que até elas começam a acreditar.

"Há casos em que as pessoas se habituam a distorcer os factos reais e, às tantas, já não conseguem distinguir a verdade e a mentira", diz a psicóloga - que sublinha que este não é um problema muito comum. "Traços de personalidade que revelam inseguranças e medo de falhar são comuns, mas daí a que a estratégia de resolução destas inseguranças seja a mentira compulsiva já é algo que acontece menos. Geralmente, as pessoas que sofrem deste tipo de inseguranças têm ataques de pânico ou então evitam o confronto com os outros, isso é mais comum."

As mentiras podem não acarretar grandes consequências mas também podem tornar-se um problema, afetando as relações sociais e de amizade dos mitómanos e até as suas relações profissionais. O que fazer nestes casos? "A mitomania não tem sintomas, tem sinais", diz João Cardoso. Ou seja, os próprios não se apercebem da doença, são os outros que percebem os sinais. Isso faz com que a intervenção seja mais difícil.

"Não é fácil confrontar um mitómono. A pessoa geralmente recusa-se a admitir", refere Catarina Graça. "É preciso criar um espaço seguro, de confiança, mostrar-lhe que não há problema em dizer a verdade, que ela será aceite, diga o que disser. Se a pessoa aceitar ser acompanhada, o problema pode ser resolvido", garante a psicóloga. "Pode demorar algum tempo, claro. Tem é de se resolver primeiro os medos e as inseguranças que estão na origem do problema."

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