Há frases que fazem parte do verão quase tanto como os mergulhos, os gelados e os dias passados na praia. Algumas ouvimo-las tantas vezes desde crianças que já nem questionamos se são verdade.
Mas será mesmo que tomar banho depois de comer faz mal? Ou que uma pessoa morena precisa de menos proteção solar? E será que dormir com a ventoinha ligada pode mesmo deixá-lo constipado?
A resposta a algumas destas perguntas pode surpreendê-lo. O pediatra Manuel Magalhães, que conta com mais de 261 mil seguidores no Instagram, onde partilha informação sobre saúde e ajuda a desmistificar ideias muito comuns, reuniu alguns dos mitos de verão mais repetidos e explicou o que está realmente por trás deles.
“Não pode tomar banho depois de comer”
Começamos pelo clássico dos clássicos. Provavelmente ouviu esta recomendação inúmeras vezes: depois de comer, é preciso esperar antes de entrar na água.
Mas a comida não é a verdadeira questão. Existe, sim, um fenómeno chamado hidrocussão, associado a uma entrada repentina em água fria. Pode acontecer, por exemplo, quando alguém esteve muito tempo ao sol e entra de forma brusca numa água bastante fria. A diferença súbita de temperatura pode provocar uma alteração da resposta cardiovascular e, em casos extremos, levar a um desmaio.
O que fazer? Entrar na água gradualmente, permitindo que o corpo se adapte à temperatura.
Ter comido antes ou não não é o fator que determina o risco de hidrocussão. Ou seja, aquela velha regra de esperar obrigatoriamente várias horas depois de uma refeição antes de dar um mergulho não tem fundamento.
"Se está moreno, não precisa de tanto protetor solar”
Este é outro mito perigoso, sobretudo porque pode levar a uma falsa sensação de segurança. A pele bronzeada resulta de uma resposta do organismo à exposição solar, mas o bronzeado não funciona como um escudo contra os raios ultravioleta.
Mesmo que a pele esteja mais morena, os raios UV continuam a poder provocar danos, contribuir para o envelhecimento da pele e aumentar o risco de lesões associadas à exposição solar.
Por isso, se já ganhou alguma cor durante as férias, não significa que possa reduzir os cuidados. Protetor solar continua a ser essencial.
“Ventoinhas, correntes de ar e gelados deixam-no doente”
Quantas vezes já ouviu que não deve dormir com a ventoinha ligada, que uma corrente de ar “apanha” uma constipação ou que comer um gelado quando está calor pode acabar numa amigdalite?
Segundo o pediatra, nada disso causa, por si só, constipações, amigdalites, otites, pneumonias ou outras doenças infecciosas. Estas doenças estão associadas a agentes infecciosos, e não ao simples facto de estar junto de uma ventoinha, numa corrente de ar ou de comer um gelado.
Aliás, durante os dias de calor intenso, procurar espaços frescos e arejados é precisamente uma das formas de ajudar a lidar melhor com as temperaturas elevadas. Portanto, pode ligar a ventoinha sem medo de que seja ela a responsável pela próxima constipação.
“Se está nevoeiro, o sol não queima”
Este mito pode ser particularmente traiçoeiro numa ida à praia. O céu está cinzento, não sente aquele calor intenso do sol e pensa que pode dispensar o protetor solar? É melhor pensar duas vezes.
Os raios ultravioleta conseguem atravessar as nuvens. Por isso, mesmo num dia de nevoeiro ou com o céu encoberto, a pele continua exposta à radiação UV e pode sofrer queimaduras.
Na verdade, este mito pode levar precisamente ao comportamento mais arriscado: baixar a guarda porque não parece estar “um dia de sol”. A regra é simples: céu nublado não significa proteção solar.
“Apanhar sol na cabeça provoca meningite”
Aqui entramos num daqueles mitos que podem assustar, mas que não correspondem à forma como a doença surge. As meningites podem ter diferentes causas, mas as meningites infecciosas estão associadas a infeções. A exposição solar, por si só, não provoca uma meningite infecciosa.
Isto não significa, naturalmente, que deva ignorar os cuidados com o calor. Nos dias de temperaturas elevadas, é importante proteger-se do sol, manter uma boa hidratação e evitar exposições prolongadas, especialmente nas horas de maior calor.
Mas uma coisa é proteção contra o calor e a radiação solar; outra é a origem de uma doença infecciosa.
Afinal, quantos mitos de verão ainda repetimos?
Muitos destes conselhos fazem parte da nossa cultura e foram passando de geração em geração. O problema é que uma recomendação repetida muitas vezes não passa automaticamente a ser verdadeira.
E, no verão, distinguir os mitos dos cuidados que realmente importam pode fazer toda a diferença, sobretudo quando falamos de crianças. Estas são apenas algumas das ideias que o Prof. Dr. Manuel Magalhães, médico pediatra, tem vindo a esclarecer através dos seus conteúdos nas redes sociais.