Há uma pergunta que vale a pena fazer neste verão: quando foi a última vez que olhou para a sua vida sem a comparar com a de outra pessoa? Parece uma questão simples, mas basta abrir o Instagram durante cinco minutos para perceber que talvez já nem nos lembremos como é fazê-lo.
Enquanto estamos no sofá depois de um dia de trabalho, há alguém numa praia paradisíaca. Enquanto passamos um fim de semana em casa, há quem esteja num festival, num concerto ou num rooftop. Enquanto poupamos para as férias, parece haver pessoas que vivem permanentemente de mala feita. E, sem darmos conta, começamos a sentir que a nossa vida é pouca.
Foi precisamente sobre este fenómeno que o psicólogo português Pedro Coutinho, especialista em ansiedade e depressão e seguido por quase 250 mil pessoas no Instagram, lançou recentemente uma reflexão que rapidamente se tornou viral nas redes sociais. E percebe-se porquê: quem viu este post, identificou-se.
"A Internet é perita em fazer com que a nossa vida pareça insuficiente", escreveu. A frase resume um dos maiores efeitos silenciosos das redes sociais: a forma como alteraram completamente a nossa ideia do que é uma vida "normal".
O novo normal nunca descansa
Durante décadas, as comparações aconteciam com o vizinho, um colega de trabalho ou um familiar. Hoje, explica o psicólogo português, competimos, mesmo sem querer, com milhares de pessoas todos os dias.
O algoritmo faz o resto: mostra-nos viagens sucessivas, corpos perfeitos, casas impecáveis, jantares sofisticados, relações felizes, carreiras de sonho e uma sucessão interminável de momentos extraordinários. Não porque essa seja a realidade da maioria das pessoas, mas porque são esses os conteúdos que mais prendem a atenção.
O problema não está apenas na comparação, está na repetição. Quando vemos o mesmo tipo de imagens vezes sem conta, começamos a acreditar que aquilo representa o quotidiano de toda a gente. E, por consequência, que o nosso quotidiano é aborrecido, insuficiente ou até um falhanço, refere o especialista em psicologia.
A vida que vemos nem sempre existe
Como lembra Pedro Coutinho, "a vida com quem te comparas, muitas vezes nem existe". A frase pode parecer exagerada, mas basta pensar um pouco. Uma fotografia capta segundos. Um vídeo dura poucos minutos. Um carrossel de imagens mostra apenas aquilo que alguém decidiu mostrar.
Não vemos as preocupações financeiras, as discussões, a ansiedade, o cansaço, os dias maus ou as horas passadas a trabalhar para pagar aquela viagem que aparece em destaque.
Vemos apenas os melhores momentos. E quando comparamos os bastidores da nossa vida com os momentos altos da vida dos outros, o resultado dificilmente pode ser justo.
O verão amplifica tudo
Segundo revela Pedro Coutinho, há uma altura do ano em que esta sensação parece ganhar ainda mais força: o verão. As redes sociais enchem-se de praias paradisíacas, sunsets, festivais, escapadinhas, cocktails e fotografias perfeitas. Dá facilmente a sensação de que toda a gente está constantemente de férias.
Mas essa não é a realidade da maioria das pessoas. Para muitos portugueses, o verão continua a significar uma ou duas semanas de descanso, alguns passeios, dias passados em casa, contas para pagar e escolhas inevitáveis sobre onde gastar dinheiro. E está tudo bem. Aliás, essa continua a ser a experiência mais comum.
Quando o algoritmo redefine a felicidade
Talvez o maior perigo das redes sociais nem seja mostrar vidas aparentemente perfeitas. É convencer-nos de que felicidade significa viver permanentemente experiências extraordinárias.
Como se uma tarde tranquila em casa, um jantar com amigos, um passeio sem fotografias ou um fim de semana sem planos fossem sinais de uma vida menos interessante. Mas talvez seja precisamente o contrário.
A felicidade raramente acontece apenas nos grandes momentos. Normalmente constrói-se nas rotinas, nos pequenos rituais, nas pessoas que já fazem parte da nossa vida e na capacidade de apreciar aquilo que temos sem sentir necessidade de o transformar em conteúdo.
Uma vida comum continua a ser uma boa vida
Há uma certa ironia em tudo isto: nunca tivemos tanto acesso à vida dos outros e, ainda assim, nunca foi tão fácil sentir que estamos a ficar para trás. Talvez porque nos esquecemos de uma coisa essencial: a maioria das pessoas vive exatamente como nós. Trabalha, descansa, faz contas, adia planos, passa dias sem fazer nada de extraordinário e encontra felicidade em momentos simples.
São essas vidas comuns que continuam a ser a regra, apenas aparecem muito menos no feed. Por isso, talvez valha a pena lembrar a última frase da reflexão de Pedro Coutinho: "Uma vida comum continua a ser uma vida boa e muito feliz. Para mim, é a melhor."
Num tempo em que o algoritmo parece querer convencer-nos de que estamos sempre a perder alguma coisa, talvez a verdadeira liberdade esteja precisamente em aceitar que uma vida normal não é uma vida insuficiente. É, muito provavelmente, a vida que a maioria de nós tem. E isso não lhe tira um único grama de valor.