Pai de cantora portuguesa famosa foi toxicodependente e alcoólico durante 20 anos. Hoje, agradece o apoio da filha e ajuda quem vive o mesmo drama
Foi adito a álcool e drogas durante 20 anos. Há 12 anos deu um “basta” e reconstruiu a vida
Francisco Deslandes passou cerca de duas décadas dependente de álcool e drogas. A luta começou ainda na adolescência e acabou por lhe roubar anos de vida, e tempo com os filhos. Há 12 anos, decidiu parar. Hoje, usa a própria experiência para ajudar outras pessoas.
No dia em que Carolina Deslandes completou 35 anos, o pai, Francisco Deslandes, escreveu-lhe uma longa declaração de amor. Falou do nascimento da filha, das lágrimas de alegria, da amizade que hoje partilham, dos quatro netos que Carolina lhe deu e do orgulho que sente na mulher, mãe e artista em que ela se tornou.
Mas foi quase no fim da mensagem que deixou as palavras que contam uma história muito maior: “Quando há 12 anos dei um basta foi para estar ao teu lado também.”
A frase, publicada no contexto do aniversário da filha, recupera um dos capítulos mais difíceis da vida de Francisco: uma luta contra a dependência de álcool e drogas que durou cerca de duas décadas e que, como o próprio reconheceu, lhe roubou tempo, relações e momentos ao lado dos filhos.
O vício começou na adolescência
Francisco Deslandes já falou publicamente sobre o seu passado e nunca escondeu a dimensão da luta.
Em outubro de 2024, numa conversa com Manuel Luís Goucha, no já extinto programa da TVI Goucha, contou que começou a consumir álcool e as primeiras drogas por volta dos 13 ou 14 anos, tendo o consumo tornado-se mais regular aos 15 ou 16. Explicou também que, naquela altura, as substâncias funcionavam como uma espécie de escape para inseguranças e sentimentos de vazio.
O problema foi crescendo até se transformar numa dependência que acompanharia Francisco durante aproximadamente 20 anos. “Fui escravo durante anos da minha adição”, contou na altura, reconhecendo que o consumo lhe roubou sonhos, oportunidades e, sobretudo, tempo de qualidade com os filhos.
A relação com a família acabou inevitavelmente afetada. Anos mais tarde, no programa Júlia, Francisco explicou que os filhos chegavam a sentir ansiedade quando ele aparecia, porque nunca sabiam em que estado o encontrariam.
“Tornei-me um escravo da minha adição”
A recuperação não aconteceu de um dia para o outro. Francisco contou que passou por várias tentativas de tratamento antes de conseguir interromper definitivamente o consumo. O verdadeiro ponto de viragem surgiu quando percebeu que já não se reconhecia.
Numa entrevista concedida este ano, descreveu aquele momento como uma espécie de fundo do poço emocional. Disse que estava “espiritualmente derrotado”, limitava-se a existir e tinha perdido o sentido para a vida.
Foi então que tomou a decisão que mudaria o rumo da sua vida. Francisco pediu ajuda e entrou num centro de recuperação em Vila Real, onde permaneceu durante cerca de 10 meses. Seguiu o chamado processo Minnesota, baseado nos 12 passos, como parte do percurso de recuperação.
Carolina acompanhou a recuperação do pai
Durante o processo de recuperação, a família voltou a acompanhá-lo de perto. Muito antes de Francisco começar a falar publicamente sobre o seu percurso, Carolina já tinha contado algumas das marcas que a dependência do pai deixou na sua infância.
Em 2018, no programa Alta Definição, a cantora revelou que tinha apenas seis anos quando encontrou uma inscrição num centro de reabilitação e percebeu que o pai tinha um problema com drogas. Contou também que, durante a infância, sentiu vergonha perante comentários de colegas sobre o pai. Ao mesmo tempo, Carolina fez questão de dizer que acreditava que ele nunca tinha querido magoar a família conscientemente.
A história não ficou, porém, presa ao passado. Em outubro de 2015, Carolina assinalou publicamente os primeiros 18 meses de recuperação do pai. Numa mensagem emocionada, destacou que ele estava “mais perto dos filhos e da família, mais perto de casa e mais perto dele”.
Recuperar não foi apenas deixar as drogas
Uma das partes mais fortes do testemunho de Francisco é precisamente esta: a sobriedade não apagou automaticamente o passado.
Em 2024, admitiu sentir culpa e arrependimento pelo tempo perdido e pelas consequências que a dependência teve na família. Mas também explicou que, atualmente, assume responsabilidades, tem rotinas saudáveis e objetivos.
E quando Manuel Luís Goucha lhe perguntou como conseguiu reconstruir a relação com os filhos, a resposta foi simples: através das atitudes. Não bastava dizer que tinha mudado. Era preciso que os filhos começassem a ver essa mudança no homem que tinham diante deles.
“Viver Sóbrio”: transformar a própria história numa ajuda para outros
Francisco decidiu entretanto levar o testemunho para além da família. Em 2026 criou a página Viver Sóbrio, dedicada à partilha da sua experiência e a conteúdos destinados a pessoas que enfrentam problemas relacionados com dependências. A página apresenta-se como um espaço de dicas para viver sóbrio e disponibiliza contacto através de mensagem privada para quem procura ajuda.
O projeto nasceu da própria experiência de recuperação. Francisco explicou, através das redes sociais, que continuar ligado ao processo e ajudar outras pessoas era também uma forma de consolidar a sua própria recuperação. Para ele, transmitir aquilo que aprendeu tornou-se uma espécie de legado.
A intenção passa também por criar novos projetos, incluindo um podcast com especialistas da área, para levar diferentes testemunhos e conhecimento sobre dependências a quem possa precisar deles.
Veja agora, na nossa galeria, as fotografias de Francisco Deslandes com a família que preparámos para si!