Carro da Uber. Créditos: Pexels
Carro da Uber. Créditos: Pexels |

Viagem de Uber acaba em tragédia. Jovem de 23 anos morre após ser deixada na autoestrada

Mafalda Mourão
18 set., 11:18

Uma jovem de 23 anos morreu depois de ser deixada numa autoestrada por um motorista da Uber. Os pais vão receber 35 milhões de euros

Uma viagem de Uber que começou como tantas outras acabou numa tragédia. Emily Normandin-Parker, de 23 anos, morreu depois de ter sido deixada pelo motorista numa zona considerada perigosa e ilegal de uma autoestrada na Califórnia, nos Estados Unidos.

Agora, os pais da jovem vão receber 40 milhões de dólares (cerca de 35 milhões de euros), na sequência de uma decisão arbitral que responsabilizou a Uber e o motorista pelo sucedido. A história foi avançada pela ABC News, que entrevistou os pais de Emily para o programa Good Morning America.

Tudo o que aconteceu naquela noite trágica

Emily Normandin-Parker, licenciada pela UCLA em 2022, estava a regressar a casa de Uber com a amiga Luna Moore depois de uma noite fora. Durante a viagem, Moore ficou doente.

O motorista, Vu Tran, decidiu parar na State Route 73, no condado de Orange, numa zona junto à saída da autoestrada conhecida como gore point: uma área triangular situada junto a uma saída.

De acordo com a decisão arbitral, Tran discutiu com Moore por causa de uma taxa de limpeza e acabou por deixar as duas mulheres naquele local.

A mãe de Emily, Carol Normandin, contou à ABC News o que acredita ter acontecido naquele momento: “Ele escolheu parar ali, exigir dinheiro e expulsá-las do carro. Só consigo pensar que a Emily estava a tentar fazer, a amiga, o motorista a discutir, era pedir ajuda. Eles discutem, a Emily é atropelada enquanto estão a discutir.”

Pouco depois, Emily entrou na autoestrada e foi atingida por um veículo, acabando por morrer.

Juiz considerou local “inseguro e ilegal”

A decisão foi tomada pelo antigo juiz Richard A. Stone, que atuou como decisor no caso. Stone descreveu o local onde o motorista deixou as duas mulheres como “inseguro e ilegal” e considerou que Tran poderia ter utilizado a saída próxima de MacArthur Boulevard e parado num local seguro.

O juiz concluiu ainda que o motorista sabia que Emily e a amiga estavam intoxicadas e que tinha discutido com Moore antes de as deixar junto à autoestrada.

A decisão refere também que dados de GPS mostraram que Tran passou perto do corpo de Emily antes de utilizar a saída seguinte e contactar a Uber para pedir o pagamento de uma taxa de limpeza.

Richard A. Stone foi particularmente crítico em relação ao depoimento de Vu Tran. Na decisão, descreveu o testemunho do motorista como “em grande parte, na verdade, quase inteiramente, incrível e inacreditável”.

O juiz considerou ainda que Tran demonstrou “muito mais preocupação com o seu carro novo do que com as suas passageiras” e concluiu que o motorista tinha outras opções para levar as duas mulheres para um local seguro.

Havia queixas anteriores contra o motorista?

Segundo os advogados dos pais de Emily, durante o processo, foram apresentadas provas de que a Uber já tinha recebido queixas relacionadas com a condução de Tran.

Um passageiro terá descrito uma viagem com o motorista como “a viagem menos segura” que tinha experienciado. Outro terá afirmado que “ele não sabe conduzir”.

Ken Parker, pai de Emily, explicou à ABC News que as queixas incluíam condução em sentido contrário numa rua de sentido único, comportamento errático e situações em que o motorista quase terá atropelado peões.

Quanto é que os pais vão receber?

Depois de cinco dias de audiências, Richard A. Stone determinou que Uber e Vu Tran são solidariamente responsáveis pelo sucedido.

Foram atribuídos: 20 milhões de dólares a Carol Normandin, mãe de Emily, 20 milhões de dólares a Ken Parker, pai da jovem, 300 mil dólares a Luna Moore, amiga que estava com Emily naquela noite.

Uber também foi responsabilizada pela atuação do motorista

Na decisão, Stone considerou a Uber responsável pela negligência de Tran enquanto common carrier, uma categoria jurídica aplicável a empresas que prestam serviços de transporte ao público.

O juiz rejeitou ainda o argumento da Uber de que a empresa seria “meramente uma empresa tecnológica” que liga passageiros a motoristas. Segundo a decisão, a Uber presta serviços de transporte através da aplicação, define os preços e controla aspetos importantes da experiência dos passageiros.

Stone rejeitou igualmente o argumento relacionado com a Proposition 22, uma medida aprovada pelos eleitores da Califórnia em 2020 que permite às empresas classificarem os motoristas de plataformas como trabalhadores independentes em vez de funcionários.

O que diz a Uber?

Num comunicado enviado ao Good Morning America, a Uber afirmou: “Nenhuma família deveria ter de sofrer a perda de um filho, e os nossos pensamentos continuam com a família Normandin-Parker.”

A empresa acrescentou que respeita o processo de arbitragem, mas considera que “o juiz errou ao responsabilizar legalmente a Uber pelos acontecimentos trágicos daquela noite”.

A Uber afirmou ainda que tem reforçado as suas medidas de segurança ao longo dos anos, incluindo orientações adicionais para os motoristas sobre a necessidade de evitar deixar passageiros em locais perigosos.

Pais dizem que Uber tentou manter decisão em segredo

Os pais de Emily falaram também à ABC News sobre o que aconteceu depois de ser conhecida a decisão arbitral.

Ken Parker afirmou que a família teve pouco tempo para absorver o resultado antes de a Uber começar a defender que a decisão não deveria ser tornada pública.

Segundo o pai de Emily, a empresa chegou a enviar-lhes um acordo que incluía uma cláusula de não difamação e uma penalização de 10 milhões de dólares por dizerem algo negativo sobre a Uber.

Ian Samson, advogado da família, disse à ABC News que ficou preocupado com a situação e defendeu que a Uber deveria alterar as suas políticas e práticas. Segundo o advogado, desde que a decisão foi emitida, observou uma grande urgência por parte da empresa para tentar mantê-la em segredo.

Pais criaram fundação em memória da filha

Depois da morte de Emily, Carol Normandin e Ken Parker criaram a Emily Normandin-Parker Foundation, dedicada à segurança dos serviços de transporte através de aplicações e à responsabilização das empresas.

Segundo um comunicado dos advogados da família, o dinheiro recebido na arbitragem será utilizado para financiar a fundação.

No final da entrevista, a mãe de Emily quis deixar uma imagem diferente da filha, para lá da tragédia que lhe tirou a vida: “O riso dela era contagiante". E acrescentou: “E ela era divertida. E sabia cantar. Meu Deus, como ela sabia cantar.”

Navegue sem anúncios em todos os nossos sites e receba benefícios exclusivos!
TORNE-SE PREMIUM