Texto de Mariana Caeiro, da agência Lusa
Com apenas seis anos, Xavier, conhecido nas redes como "Xavier, o monstrinho", soma mais de 183 mil seguidores. Ainda assim, não tem acesso ao telemóvel porque os pais acreditam que o gosto por gravar vídeos não deve comprometer a sua infância.
“Olá gatinhos e gatinhas”. É assim que o pequeno se apresenta aos seguidores nos vídeos em que fala dos seus interesses, talentos e passatempos.
Mas como começou este fenómeno?
Segundo a mãe, Cláudia Oliveira, tudo aconteceu de forma completamente espontânea.
“Isto surgiu de forma espontânea”, contou à Lusa, recordando que a família começou por gravar vídeos do filho mais novo, que descreve como “uma criança muito comunicativa e divertida”.
Mais tarde, foram as irmãs mais velhas, de 16 e 17 anos, que sugeriram partilhar alguns desses momentos nas redes sociais.
Durante muito tempo, a conta de Instagram permaneceu privada. No entanto, perante os pedidos de familiares e conhecidos para seguir o pequeno Xavier, os pais acabaram por torná-la pública.
O que nunca imaginaram foi a dimensão que o fenómeno iria ganhar.
“Percebemos que havia pessoas que ficavam genuinamente felizes por ver o Xavier, mas nunca imaginámos que os vídeos fossem chegar a tanta gente”, admitiu a mãe.
Então, porque é que Xavier não tem telemóvel?
A decisão foi tomada depois de os pais perceberem o potencial aditivo dos ecrãs.
Na altura, Xavier apenas podia usar o smartphone dos pais ao fim de semana e durante um período de tempo limitado.
Cláudia Oliveira diz ter plena consciência dos riscos associados ao acesso precoce às redes sociais e defende que “cada família tem de fazer essa reflexão de forma muito responsável”.
“No nosso caso, procuramos sempre equilibrar a partilha que fazemos dos vídeos com a proteção da infância do Xavier”, explica.
Para a mãe, “as redes sociais só fazem sentido se forem compatíveis com o bem-estar” da criança.
Mas os especialistas concordam?
A professora de Música Rita Mendes, que trabalha com crianças desde o pré-escolar até ao 3.º ciclo, tem uma visão bastante crítica sobre a presença de menores nas redes sociais.
Apesar de ter uma presença ativa no TikTok, onde reúne dezenas de milhares de seguidores, admite que a criação de conteúdos pode ter alguns benefícios, nomeadamente:
- Maior facilidade de comunicação;
- Desenvolvimento da capacidade de falar em público;
- Estímulo à criatividade.
Ainda assim, considera que a segurança das crianças “é cara demais”.
“Ainda que existam ‘prós’, que me parecem muitíssimo limitados, tudo isso também se aprende na escola, e a escola costuma ser muito boa nisso”, sublinha.
Apesar de reconhecer alguns exemplos de conteúdos infantis que considera interessantes, mantém a convicção de que os menores devem estar fora das redes sociais.
Além das questões relacionadas com a pressão social e a autoimagem, deixa um alerta:
“Não se sabe quem guarda os vídeos ou onde vão parar as imagens.”
E os pais de Xavier pensam nisso?
Cláudia Oliveira garante que sim.
“Pensamos muito antes de publicar qualquer vídeo”, afirma.
A família tem o cuidado de:
- Não mostrar locais que permitam identificar a sua localização;
- Não expor em excesso o dia a dia de Xavier;
- Filtrar os comentários que o menino conhece.
De vez em quando, leem-lhe algumas mensagens deixadas pelos seguidores, mas nunca todas.
Nem tudo, porém, foi um mar de rosas.
Recentemente, um vídeo em que Xavier mostrava a sua coleção de peluches de macacos tornou-se viral.
Muitas pessoas começaram a recriar o vídeo, utilizando o áudio original em que o menino diz gostar “muito de macacos”.
Inicialmente, a família divertiu-se com as recriações, até perceber que algumas utilizavam o áudio de forma negativa, atribuindo-lhe uma conotação racista.
“Claro que não ficámos indiferentes e achei por bem fazer um comunicado, porque era um vídeo inocente. O Xavier nem sequer soube disto”, recordou a mãe.
Ainda assim, deixa uma garantia:
“No dia em que percebermos que deixou de ser saudável, paramos de fazer estas partilhas.”
Afinal, as redes sociais são boas ou más para as crianças?
Para Júlio França, membro do Conselho de Especialidade de Psicologia da Educação da Ordem dos Psicólogos Portugueses, a resposta não é totalmente linear.
“Nem tudo é mau” nas redes sociais, admite.
Contudo, alerta que a criação de conteúdos também traz riscos, nomeadamente ao nível da autoestima das crianças.
“Não deixa de ser uma forma de comunicação e de chegar aos outros. Tudo depende da forma como podemos controlar as consequências disso”, considera.
Por isso, defende:
- Maior regulação das plataformas;
- Um acompanhamento atento por parte dos pais;
- Uma reflexão séria sobre os limites da exposição das crianças nas redes sociais.