Os vírus das constipações estão a causar hepatites graves em crianças? O que precisa de saber sobre os adenovírus

Bárbara Cruz
27 abr, 18:00
27 abr, 18:00
Criança no hospital (Foto: Oscar del Pozo/AFP via Getty Images)
Criança no hospital (Foto: Oscar del Pozo/AFP via Getty Images)

Virologista Celso Cunha admite "ceticismo" perante a possibilidade de ser um adenovírus a causar a hepatite grave de origem desconhecida que já afetou quase 200 crianças em todo o mundo, fez uma morte e obrigou a 17 transplantes hepáticos. Pediatra Manuel Ferreira de Magalhães lembra que os adenovírus são comuns nesta altura do ano e causam normalmente conjuntivites ou gastroenterites, doenças pouco graves e autolimitadas

A hipótese foi avançada por especialistas britânicos: o adenovírus poderá ser a causa das hepatites agudas de origem desconhecida que já foram detetadas em quase 200 crianças de vários países europeus e Estados Unidos.

De acordo com informações divulgadas durante o Congresso de Microbiologia e Doenças Infecciosas, que decorreu em Lisboa, os dados mais recentes apontam para que uma estipe do adenovírus denominada F41 seja a causa mais provável desta inflamação do fígado que afeta sobretudo crianças com menos de dez anos, ainda que estejam também a ser investigadas outras possibilidades, nomeadamente se os confinamentos da pandemia e a covid-19 não enfraqueceram os sistemas imunitários dos mais novos, deixando-os mais vulneráveis a doenças que, noutra situações, não teriam repercussões graves.

Mas o adenovírus não está normalmente associado a inflamações hepáticas. "É um tipo de vírus que tem o material genético numa só molécula de ADN. Há vários tipos de adenovírus e podem infetar diversos órgãos com patologias muito diferentes", explica Celso Cunha, virologista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. "As patologias mais frequentes, porém, são as do trato respiratório", acrescenta o especialista, que admite alguma estranheza em relação à possibilidade de ser um adenovírus a causar esta doença hepática grave em idade pediátrica. 

"Não sei em que se baseiam as suspeitas, não sei se foi encontrado material genético do vírus ou se foram encontrados anticorpos, que são coisas diferentes e dão indícios diferentes", refere. "De resto, os adenovírus são muito frequentes e existem em todos os animais, não têm grandes particularidades nem causam patologias normalmente graves. São vírus que circulam por aí e nos causam de vez em quando umas constipaçõezitas", assinala Celso Cunha. "O facto de causarem este tipo de hepatites nas crianças é uma novidade, porque o adenovírus não costuma causar uma doença hepática assim. Mas começa a haver muita especulação", diz o virologista. 

Para Celso Cunha, o mais invulgar nos casos de hepatites agudas que têm sido diagnosticados nas últimas semanas é o número de transplantes que já tiveram de ser realizados - 17 transplantes hepáticos no total, ou seja, em cerca de 10% dos casos detetados houve falência total e irreversível do fígado. "É um falhanço total da função hepática que por vezes acontece nas hepatites fulminantes, mas são fenómenos relativamente raros. Geralmente, o transplante hepático dá-se no caso da hepatite C ou B, quando existe doença crónica e o fígado vai começando a degradar-se devagarinho, passa da inflamação à cirrose e depois ao carcionoma. Mas até chegar à fase do transplante pode levar anos, sobretudo hoje em dia, com melhores medicamentos para a hepatite C e para o controlo da hepatite B", indica o especialista. 

De acordo com testes laboratoriais cujos resultados foram divulgados pelas autoridades de saúde a nível mundial, nenhum dos vírus associados às hepatites (de A a E) foi detetado nas crianças diagnosticadas com esta hepatite aguda de origem desconhecida.

Alteração genética de um adenovírus?

A possibilidade de ter havido uma alteração genética de uma estirpe do adenovírus, por exemplo, pode ser colocada, admite Celso Cunha. Mas alerta: "Estes vírus de DNA não têm taxas de mutação muito grandes como têm os de RNA, como são os coronavírus, o vírus da hepatite C, o do HIV ou o da gripe, por exemplo, que acumulam mutações e têm a capacidade de fazer troca de segmentos genéticos durante a replicação dentro da célula", sublinha. 

"Vejo com algum ceticismo que possa ser algo deste género. Primeiro, é preciso estabelecer concretamente se o responsável é mesmo um adenovírus. E, se for mesmo adenovírus, também já li que a causa das doenças poderá ser não só o vírus mas um sistema imunitário mais débil. E isso é possível", sublinha o virologista.

"Há dezenas de adenovírus, são vírus muito bem estudados porque com eles fizemos descobertas fundamentais sobre o funcionamento das células", destaca também o especialista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical. Mas serão mesmo eles que estão por trás das hepatites agudas em crianças? "Neste momento, e pelo que tenho lido da imprensa, não apostava", admite. 

Num relatório entretanto divulgado, a Organização Mundial da Saúde também admite que o adenovírus, sendo uma das hipóteses, "não explica na totalidade a severidade do quadro clínico", mesmo que a estirpe F41 do adenovírus tenha sido detetada em muitas das crianças com inflamação hepática - cerca de 75% das crianças inglesas, por exemplo. "Ainda que haja casos registados de hepatite em crianças imunodeprimidas com infeção por adenovírus, o tipo 41 de adenovírus não é uma causa conhecida de hepatite em crianças saudáveis", ressalva o documento da OMS. 

A OMS já sublinhou também não ter encontrado qualquer relação entre os casos de hepatite aguda em crianças e a vacina contra a covid-19 ou o consumo de algum tipo de alimento ou medicamentos.

"As causas permanecem sob investigação profunda. Estamos a analisar uma série de fatores subjacentes, infecciosos e não infecciosos", disse Philippa Easterbrook, especialista da OMS, numa conferência de imprensa que decorreu na terça-feira em Genebra.

Conjuntivites e "pingos no nariz"

Manuel Ferreira de Magalhães, especialista em pneumologia pediátrica, admite que, na sua prática clínica, tem observado nos últimos meses um grande número de crianças com quadros típicos de infeções por adenovírus, mas que "estão de acordo com a sazonalidade normal" do vírus, assegura. "Os adenovírus são vírus que temos na comunidade o ano inteiro e, naturalmente, podem provocar doença o ano inteiro. Mas atingem maior incidência nos meses de inverno e primavera, que é precisamente a altura em que estamos, e dar vários tipos de doença, respiratória ou gastrointestinal", refere o pediatra.

As doenças mais comuns provocadas pelos adenovírus são as constipações, faringites ou bronquiolites, estas nas crianças mais pequenas. "Classicamente, o adenovírus está associado a conjuntivite vírica e pode dar gastroenterite com diarreia", indica Manuel Ferreira de Magalhães.

Sobre a hipótese colocada pelos médicos britânicos, de estarmos perante uma estirpe de adenovírus mais violenta e que afete com mais gravidade a parte gastrointestinal e hepática, o pediatra admite que "é uma das hipóteses em cima da mesa", acrescentando que o aumento dos casos de hepatite aguda agora registados pode também explicar-se porque, nos últimos dois anos, tivemos uma diminuição acentuada, no geral, no número de infeções, graças às medidas de restrição e confinamentos a que a pandemia obrigou.

Ferreira de Magalhães recorda o que aconteceu, por exemplo, no ano passado, com o vírus sincicial respiratório, que também é causa de bronquiolites e surgiu em força numa altura pouco habitual, sendo mais comum nos meses de frio: "Devido aos confinamentos, alterámos a dinâmica e a sazonalidade do vírus", diz o pediatra. 

A menor exposição das crianças a doenças nos últimos dois anos, que é também uma das hipóteses avançadas pelos especialistas britânicos para a gravidade das inflamações no fígado diagnosticadas, é ainda um fator a ter em conta, refere Manuel Ferreira de Magalhães, uma vez que o organismo dos mais novos não teve oportunidade de se ir habituando a criar "mecanismos de defesa contra pequenas infeções".

Tendo lido os relatórios técnicos sobre os casos de hepatite aguda no Reino Unido, onde se regista a maioria dos casos, o pediatra pede, contudo, alguma cautela na responsabilização dos adenovírus: "Até agora, estamos sempre no campo das suposições".

Como se apanham (e previnem) os adenovírus

Sobre as formas habituais de contágio dos adenovírus, Manuel Ferreira de Magalhães relembra que estes, tal como a covid-19, são transmitidos através das gotículas e de contacto, pelo que as medidas para diminuir os contágios implementadas durante a pandemia podem servir para afastar os adenovírus, nomeadamente distanciamento e higiene respiratória. "Mas, a não ser que de repente se percebesse que havia de facto uma mutação grave do adenovírus, não vejo qualquer razão para regressarmos às máscaras", ressalva o especialista, referindo que este tipo de vírus é normalmente autolimitado e se resolve de forma espontânea. 

"O adenovírus pode ser mais grave em crianças imunocomprometidas, mas isso acontece com qualquer infeção. Pode dar cistite, hepatite, nefrite, pode apresentar imensas formas e evoluir com gravidade. Mas isso, sublinho, é muito raro. Na maioria das vezes, o adenovírus apresenta-se como uma febre associada a um pingo no nariz e conjuntivite. Nos bebés, pode causar bronquiolite", atalha o pediatra. 

A boa higienização das mãos, superfícies e alimentos é uma forma de impedir o contágio das infeções mais comuns, evitando igualmente a transmissão do adenovírus que poderá estar na origem desta inflamação aguda do fígado. 

Os casos de hepatite aguda em crianças já foram detetados em 12 países, com pelo menos 169 casos reportados pela Organização Mundial de Saúde - de acordo com o balanço mais recente, que remonta ao dia 21 de abril. O Reino Unido regista a maioria dos casos, seguindo-se Espanha e Israel. Também foram registados casos nos Estados Unidos, Dinamarca, Itália, França ou Bélgica. No domingo, a OMS anunciou que uma criança morreu vítima da doença, sem revelar em que país ocorreu a morte.

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças já anunciou que está a monitorizar os casos notificados e conta publicar amanhã, quinta-feira, uma avaliação rápida de risco.

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